quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

O NAMORO ENTRE O SOL E A TERRA.


Da escuridão se fez a luz.
Do silêncio se fez o som.
Da quietude do universo se fez a vida.
Assim, fizeram-se o Sol e a Terra.
Ao Sol coube cuidar da Terra, mantendo-a aquecida com a energia de sua luz.
Deveria assim o Sol ser vigilante para com a Terra, para sempre.
A Terra coube ficar sempre próxima ao Sol, cercando-o em sua órbita.
Dia e noite, Sol e Terra se enamoram.
Enquanto o Sol cuida da Terra com a energia e o carinho de sua luz, a Terra baila ao redor do Sol, cortejando-o como a amada que se mostra graciosamente ao namorado.
Para enaltecer o amor entre o Sol e a Terra, criaram-se as estrelas.
E desse amor nasceu a Lua que gira em torno da Terra, como um filho que fica próximo a sua mãe.
Apesar de não se tocarem, Sol e Terra sabem que sempre estarão ali, bem juntos, um e outro, eternamente, na infinitude do leito do universo.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O BAILE


Noite de sábado, pista cheia de uma casa na Lapa, Rio de Janeiro. No escuro, corpos se agitam, com a música eletrônica no fundo. Techno, Hip-Hop e Funk agitam a noite.
O DJ capricha no repertório que embriaga as pessoas, juntamente com bebidas e cigarros. Bebe-se de tudo. Fuma-se de tudo.
Os deuses só são alcançados mediante a embriaguez.
Na penumbra, homens e mulheres dançam e se comungam em gestos eróticos. Tudo fica à flor da pele.
Contratos sociais e convencionais dão lugar a contratos afetivos, efêmeros, líquidos.
Nada se combina. As coisas acontecem espontaneamente. Pra que falar se o que impera é a orgia. Um constante (re)arranjo se faz durante toda a noite. A dança e a circulação pela pista possibilitam encontros. Olhares, beijos e toques são os cartões de visita.
Todas as pessoas querem ver e ser vistas.
A vida pulsa, coletivamente. Mesmo quem tenta se conter, é irresistivelmente acolhido pela massa. Ninguém é de ninguém, e todo mundo é de todo mundo.
Os seguranças da casa se fazem presentes para manter a ordem, reconhecendo que vigora a desordem, ou, uma nova ordem. A ordem da vida que se liberta das amarras do cotidiano.
Aliás, não importa a idade, o sexo, a formação cultural ou a profissão. Nada serve para apartar. Tudo une.
Cada pessoa coloca sua máscara. Os mitos da racionalidade, da labuta e da morte sedem lugar aos deuses do inconsciente, da orgia, da festa, da alegria e da vida.
Deixa rolar. Esse é o tema da noite.
Viva a vida, ainda que seja somente no presente. Não se quer ser eterno, mas sim infinito. O agora se propaga no tempo. Pra que pensar no futuro. Who wants to live forever?
Deixa rolar.
A noite termina onde se quiser. Ali mesmo, naquela casa; num motel; na praia; pela cidade. Sabe-se lá
Deixa rolar.
Até lá, aproveite o baile e...
Deixa rolar.

O MENINO E O VALE


Bachir estava sentado num bloco de pedra, em frente à casa em que habitava com seus pais e irmãos. O chão de terra arenosa lhe servia de palco para sua imaginação. Nele, com um pequeno graveto, tecia retas e curvas, fazendo desenhos que iam do retrato de sua realidade até suas imaginações que planavam sobre sua cabeça como as aves que apareciam no céu azul.
Bachir era um menino como outros que vivam naquela vila encravada no meio de um vale cercado por montanhas áridas, formadas por pedras e algumas plantas que ousavam resistir às condições climáticas adversas. Casas de barro e tijolos envelhecidos serviam como marca da resistência humana num cenário desolador. Era uma vila pobre, com pessoas visivelmente humildes, em sua maioria, velhos. Crianças naquela vila eram muito poucas.
A subsistência dos habitantes da vila era garantida graças à atividade agrícola e à criação de alguns animais, como porcos e galinhas. Água naquela região era um recurso escasso. Só havia um poço para abastecer toda população local.
O interessante é que ninguém se aventurava a sair da vila, ou, pelo menos, ninguém que se tivesse notícia recente, pois conta-se que uma única pessoa havia partido há muito tempo e que ninguém soubesse mais dela.
Circulava entre os habitantes daquela vila uma lenda de que a pessoa que há muito havia partido se perdeu nos confins do mundo. Para eles, a vila representava uma espécie de centro do universo; tudo que estivesse fora dela e, portanto, além do alcance da visão de seus moradores, era considerado como perdido e fadado à desgraça.
Bachir cresceu e percebeu que seus pensamentos extrapolavam os limites daquela vila. O vôo das aves lhe dava a sensação de infinitude do universo frente às limitações daquela pequena comunidade. Olhava para o topo das montanhas que cercavam a vila e se perguntava se realmente não haveria nada além delas.
Bachir se perguntava se as pobres condições da vila onde morava se repetiriam além dos limites estabelecidos pelas montanhas. Via as aves e as nuvens atravessarem as montanhas. As idas e vindas das aves, numa liberdade invejável, começaram a lhe chamar a atenção.
Quando já tinha uma idade mais avançada e, segundo a cultura popular da vila, em plenas condições de se tornar independente de seus pais e até se casar, Bachir sentiu-se tocado pela vontade de quebrar certas tradições, sendo uma delas, a recomendação de não subir as montanhas para ver o que haveria além delas.
Para o povo local, a recomendação de partir para o topo das montanhas assumia uma condição divina, o que, na prática, se revelava como uma espécie de proibição. A simples menção a possibilidade de cruzar as montanhas era encarada pelas pessoas daquela vila como um tabú. Se o Criador havia confinado a população a viver naquele espaço físico limitado, mas em segurança, não caberia aos homens a ousadia de quebrar tal preceito. O castigo seria a perda no deserto e, conseqüentemente, morte por sede e fome.
Na mesma proporção que Bachir se entregava à necessidade de se aventurar pelas montanhas, sentia temor de que as lendas dos habitantes da vila se concretizassem. A vontade de imitar as aves ia de encontro ao medo da perdição e morte.
Certa noite, quando as atividades na vila haviam cessado até a manhã seguinte, Bachir resolveu testar sua coragem. Saiu de casa com uma bolsa contendo pão e água. Partiu por uma das montanhas que cercavam a vila, tomando cuidado para que não fosse visto.
Começou sua caminhada com um misto de euforia e medo. Quando já tinha percorrido uma boa distância, percebeu que a caminhada até o topo da montanha seria árdua. Além das condições inóspitas da montanha em questão, sua altura servia para intimidar qualquer um que por ela se aventurasse.
A temperatura caía muito ao anoitecer, revelando uma variação térmica de extremo contraste com as altas temperaturas dos dias.
Naquela noite, o medo foi maior do que a sede de ver o novo, fazendo com que Bachir retornasse para sua casa. Por mais duras que fossem as condições de vida na vila, pelo menos havia um sentimento de que nela estaria a única garantia de segurança física de seus habitantes, inclusive do jovem aventureiro.
O dia raiou e o menino voltou a olhar fixamente para as montanhas. Em sua mente havia uma mistura de segurança e covardia. Ficou angustiado e confuso.
Via as aves num vôo sem limites. Elas planavam, aproveitando as correntes de ar que atravessavam o vale. Ao fundo, as nuvens se moviam lentamente, surgindo por cima de umas montanhas, atravessando o vale e fugindo pelas montanhas do lado oposto.
Tal visão serviu para acentuar o sentimento de angústia em Bachir. Passou a noite em claro, virando e revirando em sua cama, iluminado pela lua cheia que se sustentava no céu.
No dia seguinte, se levantou cedo, como era de costume naquela vila, eis que havia obrigações a serem cumpridas. Mesmo assim, as tarefas desempenhadas durante aquele dia em nada distraíram a sua mente. Afinal, as montanhas estavam lá para lembrar-lhe da dúvida que habitava sua cabeça – ficar na segurança da humilde vila ou partir rumo ao desconhecido.
O dia passou. A noite caía e Bachir continuava olhando pela janela o topo das montanhas.
Aquilo se repetiu por várias vezes, chamando inclusive a atenção da mãe do menino. Quando não estava ocupado com os afazeres, Bachir permanecia com sua atenção voltada para os cumes das montanhas.
Com a intuição materna, aquela mulher percebia a vontade de seu filho. E, se por um lado desejava interromper qualquer possibilidade de aventura de seu filho, por outro, sentia que a hora da partida se aproximava. E essa hora havia chegado
Um dia, antes que a vila despertasse, Bachir partiu. Em sua pequena sacola, presa às costas, levava aquilo que supunha ser necessário para sua sobrevivência, pelo menos, para alguns dias.
Além da sacola, levava consigo um sentimento de despedida. Antes de sair de casa, deu uma última olhada em seus pais, que ainda permaneciam na cama, já que o dia não havia se firmado.
Bachir viu o reflexo do amanhecer no rosto de sua mãe. Percebeu a marca do tempo nas rugas do rosto e nas mãos da mulher que ali dormia. Não era uma mulher velha, mas que, devido à intensa carga de trabalho ao longo dos anos, havia envelhecido rapidamente.
Pela última vez, o menino viu seu pai e sua mãe, tomando todas as cautelas para que não fosse percebido. Não sabia ele que sua mãe o havia percebido ali bem em frente à porta do quarto do casal, a qual se encontrava entreaberta. Não percebia que aquela mulher havia optado por deixá-lo partir, mesmo considerando o temor de mãe.
Enfim, Bachir deixou a casa, partindo rumo às montanhas que aguardavam há muito a sua decisão.
Nas primeiras horas, a subida foi fácil. Mas, com o correr do tempo e o desgaste físico, a caminhada ficava cada vez mais difícil, levando o menino a pensar novamente se não seria melhor retornar para casa, como tinha feito em outra tentativa.
Parou e olhou par trás. Viu a humilde vila onde havia residido, notando que o que até então parecia grande não passava de um ponto na imensidão do vale.
Mas dessa vez, determinado em se deparar com o desconhecido, o outro lado das montanhas, Bachir prosseguiu. Levou um dia e uma noite inteira para chegar ao topo de uma das montanhas que o desafiava, até que no dia seguinte conseguisse chegar lá.
Tendo chegado ao topo de uma das montanhas, Bachir se deparou com uma paisagem muito diferente daquela a que estava habituado. Ao contrário de uma pequena vila no meio de um vale como solo árido, desta vez podia ver as riquezas naturais que se espalhavam bem a sua frente. A exuberância de uma extensa planície verde tomava conta do cenário que estava bem ali à frente do menino.
De início, foi tomado pela emoção, ao ver a paisagem mais rica que tinha visto em sua vida. Nunca tinha visto tanta riqueza, já que os extensos campos verdes e as fontes de água contrastavam como aquela paisagem árida do vale onde havia habitado.
Mas a emoção foi abalada pelas lembranças e pelo temor de seguir adiante. Como seguir em frente, rumo a lugares desconhecidos? Será que valeria a pena aceitar o desafio em troca de uma vida modesta mais segura?
A essa altura, Bachir já havia caminhado bastante para olhar para trás e rever a vila onde havia passado sua vida.
E foi naquele momento que decidiu seguir em frente. Se dispos a carregar consigo somente as lembranças do lugar onde viveu até então e das pessoas com quem conviveu.
Foi ali que sentiu que era o momento de ruptura, de busca pelo novo, de amplitude de concepção do sentido de sua própria existência. Pela primeira vez, compreendeu que viver a vida implica correr riscos.
E assim, Bachir partiu rumo ao desconhecido e à imensidão de possibilidades que a vida lhe reservara, diante do cenário que estava ali bem a sua vista e com a coragem de seguir em frente. E partiu.

O OUTRO


Num dia de sol radiante e céu azul, com nuvens esparsas e volumosas como chumaços de algodão alvos, o campo de trigo parecia um grande tapete dourado que se mexia ao leve toque da brisa. Em meio ao campo de trigo, Baruch cuidava de ramo por ramo, num zelo que revelava seu carinho para com a terra, herdada de seu pai, Abiel, por ocasião de seu falecimento. Além do cultivo de trigo, Baruch de dedicava a criação de galinhas e ovelhas.
Assim como Baruch, Faruk também cultivava trigo e criava animais. Faruk era irmão de Baruch por parte de pai. Abiel havia se relacionado com Ada e Aminah, as quais geraram Baruch e Faruk, respectivamente.
Com a morte de Abiel, Baruch e Faruk herdaram, cada um, uma metade da terra. Mesmo com o pai em comum, Baruch e Faruk nunca fizeram questão de manter uma boa relação. Pelo contrário, com a morte de Abiel, a discórdia entre os irmãos parecia crescer a cada dia, ao ponto de Baruch e Faruk selarem um pacto de ódio mútuo. E, em decorrência deste pacto, um irmão não se proporia a facilitar a vida para o outro.
A terra que outrora pertencera a Abiel foi dividida em duas partes iguais. Baruch ficou com uma metade e Faruk com a outra. Ambos faziam questão de deixar bem claro que na primeira oportunidade, buscariam forçar a saída do outro de sua parte da terra, com o intuito de unificar as porções, como nas dimensões originais.
Cada um dos irmãos habitava a terra com sua respectiva família. Baruch era casado com Miriam e tivera com ela dois filhos chamados Dedan e Elam. Já Faruk era casado como Salma, tendo Safira e Emir como filhos deste casal.
Tanto Baruch como Faruk se dedicavam quase que exclusivamente às plantações de trigo e criações de galinhas e ovelhas. Enquanto isso, Miriam e Salma tratavam de cuidar dos afazeres domésticos e da educação de seus filhos, dando prosseguimento à tradição de suas famílias.
Por parte de Baruch, Elam ajudava seu pai no cultivo da terra e na criação dos animais, em boa parte do dia. Nas manhãs, Elam estudava numa escola localizada numa cidade próxima. Dedan havia partido para estudar numa escola religiosa longe da terra de seu pai, o que para Baruch significava motivo de orgulho.
Emir e Safira também estudavam numa escola na mesma cidade em que Elam freqüentava outra instituição de ensino.
Apesar do pacto de ódio entre os irmãos, sua convivência se baseava na indiferença, até o dia em que algumas galinhas pertencentes a Faruk pularam a cerca rumo à propriedade de Baruch. Mesmo diante dos pedidos de Faruk, Baruch negou-se a devolver as galinhas que atravessaram a cerca que dividia as duas propriedades.
Para Baruch, as galinhas lhe pertenciam, pois haviam pulado o muro para dentro de sua propriedade, o que demonstrava que não foram roubadas. Tal afirmação irritou Faruk que, entendendo que a apropriação das galinhas por parte de Baruch significava um roubo, jurou vingança.
O tempo passou, enquanto a promessa de Faruk parecia ficar esquecida. A rotina dos irmãos, dedicada ao cultivo do campo e à criação de animais contribuía para que determinados sentimentos, como ódio e sede de vingança, fossem deixados de lado.
Mesmo fazendo questão de frisar que seus valores e culturas eram tão diferentes, ambos os irmãos e suas famílias levavam uma vida parecida. As atividades eram exercidas normalmente pelas duas famílias, de domingo à sexta-feira, quando, ao anoitecer deste dia, se dedicavam às tradições deixadas pelo patriarca Abiel. O cuidado especial com a higiene e a vestimenta marcavam, além das orações, as noites de sexta-feira.
Aos sábados, ambas as famílias não trabalhavam, em respeito às tradições familiares. Os afazeres normais à vida no campo somente eram retomadas no amanhecer de domingo.
Baruch e Faruk comercializavam ovelhas, galinhas, ovos e trigo com os moradores da cidade próxima, a mesma em que Elam, Emir e Safira estudavam. Mesmo diante da idéia de que o comércio desenvolvido pelos irmãos Baruch e Faruk significava uma concorrência direta, na prática, esta não se concretizava. Isto porque toda a produção de Baruch e Faruk servia para abastecer integralmente as casas e comércio da tal cidade.
A má relação entre Baruch e Faruk servia de assunto para as conversas na cidade. Considerando que a cidade era pequena e que todas as pessoas se conheciam, qualquer incidente não passaria despercebido.
Havia na cidade três grupos de pessoas. Um dos grupos simpatizava com a família de Baruch e somente adquiria os frutos de sua terra, enquanto outro grupo só comprava os produtos de Faruk.
Parecia que a desavença entre os irmãos chegava à vida dos habitantes da cidade, ainda que de maneira velada e não tão intensa como àqueles. Mas, ainda assim, tinha gente que dizia que somente comprava os bens vindos das terras de Baruch, eis que “este seria este o herdeiro legítimo de Abiel”. Para outros, por ser primogênito, Faruk seria o “verdadeiro herdeiro das terras de Abiel”.
Além dos dois grupos de simpatizantes, existia um terceiro grupo, mais volumoso e, que, sem se deixar levar pelo conflito entre os dois irmãos, dava pouca importância à origem dos produtos e das crias. Este grupo estava muito mais interessado em satisfazer suas necessidades, considerando os melhores preços oferecidos, do que se entregar ao conflito.
Junto a este último grupo, a concorrência entre Baruch e Faruk era acirrada. Os dois irmãos travam uma verdadeira corrida para ver quem chegava primeiro a cidade. A concorrência entre Baruch e Faruk tinha um fim maior do que o comercial; tratava-se de um jogo em que o objetivo era a ruína do outro.
Um dia, chegou aos ouvidos de Baruch que seu filho Elam estaria mantendo um suposto romance com Safira, filha de Faruk, o que para ele era inconcebível.
Elam e Safira pareciam não ligar para as desavenças de seus pais. Afinal, não conseguiam entender como dois irmãos de sangue, por parte de pai, faziam questão de se manter distantes. Mas, a distância que separava ambos os irmãos também fazia parte das tradições que envolviam ambas as famílias.
A aproximação entre Elam e Safira significava uma violação a tais tradições e, portanto, uma traição aos preceitos que eram tidos como inquestionáveis e invioláveis.
Por parte de Faruk, a aproximação entre Elam e Safira, sua filha, também não lhe agradava. Ele chegou, inclusive, a ameaçar Safira com a proibição de sair de casa.
A situação tomou uma dimensão que nem Miriam e Salma foram poupadas. Para seus maridos, estas seriam culpadas pelo suposto desleixo na educação de seus filhos.
O relacionamento entre Elam e Safira tinha um preço. A reprovação de seus pais, suas mães e seus irmãos era algo que não poderia ficar de lado. Tanto Baruch quanto Faruk haviam ameaçado Elam e Safira, respectivamente, com a possibilidade de deserdação, o que para os costumes locais era uma desgraça.
O conflito entre as duas famílias, devido ao relacionamento entre Elam e Safira, chegou ao clímax quando Emir interveio pela honra de sua família. Elam e Emir brigaram em pleno centro da cidade, na presença de inúmeras pessoas. Além dos hematomas e feridas nos corpos de ambos os rapazes, a briga parecia ter deixado marcas mais profundas no filho de Baruch e em Safira.
Elam e Safira perceberam que o preço a ser pago pelo romance era muito alto e que, portanto, não valia à pena continuar com aquele relacionamento. A separação do jovem casal serviu para mostrar a incompatibilidade entre as famílias de Baruch e Faruk.
Havia regras seguidas há muito tempo por ambas as famílias que jamais deveriam ser quebradas. Ficou claro qualquer membro, de qualquer das duas famílias, que ousasse violar tais preceitos, pagaria um alto preço.
Qualquer um poderia dizer que a separação entre Elam e Safira significou um ato de covardia, pois a eles faltaria uma visão de mundo maior do que a deixada pelos seus pais. Entretanto, a identidade que cada um carregava consigo era um traço marcante. Além da perda patrimonial a que cada um dos jovens estaria sujeito, o que mais importava era a possibilidade de perda de contato com seus pais, mães e irmãos.
Elam e Safira realmente viam o mundo de outra forma. Mas, procuravam manter seus referenciais. Ainda que inconscientemente, ambos os jovens carregavam a missão de dar prosseguimento às tradições de seus pais.
Certo dia, as ovelhas de Baruch foram acometidas por uma doença misteriosa que tratou de liquidá-las, uma por uma. Tal perda foi vista por ele como uma espécie de castigo divino pela aproximação entre Elam e Safira.
Baruch fazia questão de disseminar para quem quisesse ouvir que a aproximação entre Elam, seu filho, e Safira, filha de Faruk, havia contaminado seu lar e a todos que ali viviam, inclusive os animais.
A morte das ovelhas foi vista como um presságio ruim, que servia para alertar aos membros da família de Baruch que tal fato não poderia se repetir.
Por parte de Faruk, a morte das ovelhas de Baruch também era encarada como um castigo. Para ele, Deus havia se enfurecido com as supostas malícias de Elam diante de Safira, razão pela qual havia amaldiçoado o lar de Baruch.
O fato é que, cada um dos irmãos manifestava a crença que Deus estaria em seu lado.
Com o decorrer do tempo, Elam se casou com uma jovem moça, dando a Baruch três netos. E Safira também havia se casado com um amigo de Emir. Ela teve dois filhos.
Assim como fizeram com Elam, Dedan, Emir e Safira, Baruch e Faruk trataram de fomentar a rivalidade entre seus netos, mesmo que estes ainda fossem muito pequenos. Tanto Baruch como Faruk ensinavam a seus netos a lançar pedras sobre a propriedade da família considerada como rival, o que levou a ambas as famílias a colocar cercas de arame na parte de cima de seus muros e a melhor proteger suas criações de animais.
Tudo caminhava na sua mais perfeita rotina, quando uma tragédia se abateu sobre a família de Faruk. A notícia que chegara da cidade dava conta de que seu filho Emir havia sofrido um acidente enquanto transportava trigo para os comerciantes da cidade próxima à terra de seu pai. A carroça que guiava havia caído num barranco.
Tentando dominar os cavalos, Emir não conseguiu evitar a queda, vindo a morrer em decorrência de esmagamento pela carroça.
Faruk sofreu muito com a perda de seu filho homem. Além de ser mais velho que Safira, por ser homem, Emir era o herdeiro natural dos bens de Faruk.
A morte de Emir exerceu um forte impacto sobre Faruk que este logo adoeceu. Deixou de se levantar cedo e cuidar do campo. A plantação de trigo acabava por ficar abandonada. O mesmo acontecendo com as galinhas e as ovelhas.
Salma, mulher de Faruk, fazia o que podia para cuidar dos animais, enquanto Safira se dedicava à plantação de trigo.
Tomado pelo desgosto pela morte do filho, Faruk faleceu abraçado à fotografia de Emir.
Muitas pessoas acreditam que a morte de Faruk significaria o tão sonhado triunfo para Baruch. Imaginavam aquelas que, com o falecimento de Faruk, Baruch finalmente poderia adquirir as terras de seu irmão, mesmo considerando o pagamento de um alto preço aos herdeiros de Faruk. Afinal, essa era a meta de vida de cada um dos irmãos – se livrar do outro e adquirir a porção da terra que havia sido desmembrada por conta do falecimento de Abiel.
Mas, ao contrário do que todos esperavam, Baruch misteriosamente começou a adoecer. Tanto que, Dedan, que estudava em uma cidade muito longe, veio às pressas ver seu pai.
A notícia logo se espalhou pela cidade. Alguns atribuíram a doença de Baruch a uma doença. Para outras pessoas, a velhice de Baruch cobrava seu preço.
Afinal, qual seria o motivo do adoecimento de Baruch?
Há que diga que Baruch sofreu pela a morte de seu irmão Faruk.
Mas como poderia ser? Os dois não se odiavam?
Talvez este seja o real motivo. O ódio entre os irmãos parecia servir como motivação para a vida de ambos. Somente por meio da existência de um, o outro tinha razões para justificar seus atos e suas palavras.
Ao que parece, com o perecimento de um dos irmãos, o outro perdeu o sentido de sua própria vida.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O IMAGINÁRIO DAS SOMBRAS


No final do mês de novembro de 2009, o presidente da República Islâmica do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, esteve em visita à República Federativa do Brasil, gerando protestos de parlamentares, congregações judaicas, entidades homoafetivas (os LGBTs), grupos de direitos humanos, etc.
A vinda do presidente iraniano ao Brasil, a convite do presidente Luis Inácio Lula da Silva, reprisa a visita daquele à República Bolivariana da Venezuela, de Hugo Chavéz. E alguns dias depois, o presidente iraniano ainda realizou uma viagem à Bolívia, ou Estado Plurinacional de Bolívia, conforme seu nome oficial, a convite do presidente Evo Moralez.
Mas afinal, o que causa tanto arrepio em países como os Estados Unidos da América e Israel, em parlamentares brasileiros, entidades judaicas, homoafetivas (LGBTs) e naquelas ligadas à defesa dos direitos humanos? E, em plena era de globalização, caberia uma oposição tão acirrada ao presidente da República Islâmica do Irã, Mahmoud Ahmadinejad?
Cabe lembrar o momento “revolucionário” vivido na América Latina, em que figuras ilustres como Luis Inácio Lula da Silva, no Brasil, Hugo Chavéz, na Venezuela, Evo Morales, na Bolívia, Augusto Zelaya, em Honduras, entre outros, encontram-se no poder e com um discurso que parece estar em harmonia quanto à ascensão de idéias que desafiam a até então vigente relação de poder entre as nações. O sistema de poder enjendrado pelos países considerados desenvolvidos, outrora liderados pelo chamado G-8, encontra-se sob franca contestação pelos países em desenvolvimento ou denominados como emergentes.
Seriam os ecos dos movimentos nacionais das décadas de 1950 e 1960, calados por grupos autoritários com a colaboração de intervenções estrangeiras como a dos Estados Unidos da América e de sua Agência Central de Inteligência (sigla CIA, em inglês), na América Latina?
Sob o vulto de personalidades “revolucionárias” como Fidel Castro, estariam Lula, Chavés e Morales, entre outros, dando continuidade a um processo de socialização e nacionalização tardia na América Latina?
Tal questão merece um ensaio próprio, o que aliás já foi publicado neste blog.
Mas, voltando a Mohamed Ahmadinejad e sua política, o que há de tão preocupante na visita do presidente da República Islâmica do Irã ao continente americano?
A oposição ao presidente do Irã se construiu na comunidade internacional, inclusive no Brasil, considerando as repetidas afirmações deste sobre a inexistência de acontecimentos com o holocausto (shoah), a predisposição em “varrer Israel do mapa”, a perseguição às chamadas minorias, como os homoafetivos, as supostas fraudes no processo eleitoral de 2009, a acusação de violação dos direitos humanos e a insistência em seguir com o processo de desenvolvimento nuclear.
Há uma tensão na comunidade internacional quanto ao plano nuclear do Irã. Em que pesem as informações prestadas pelo governo iraniano sobre o enriquecimento de urânio para fins meramente pacíficos, tal hipótese parece causar arrepio ao redor do globo, especialmente em países como Estados Unidos e Israel.
Diga-se que a inclinação antissemita (ou mais precisamente antijudaica) do presidente do Irã vem servindo para aumentar ainda mais a desconfiança com relação aos planos deste país para sua energia nuclear.
O que parece se tratar de uma mera tensão política de ordem internacional traz consigo um imaginário do medo, considerando experiências como a tomada do poder pelos nazifascistas e suas repercussões, como a aniquilação de milhares de seres humanos (judeus, ciganos, homossexuais, deficientes físicos e mentais, e dissidentes políticos) na longínqua década de 1940, mas ainda fresca na memória coletiva da humanidade.
Parece que a tolerância e até a aparente simpatia de líderes de governos na América Latina estão despertando uma preocupação coletiva quanto a uma catástrofe anunciada. Ao que tudo indica, há uma constante preocupação que esta tolerância (ou ausência de crença num mal maior) possa fazer com que haja uma reprise do capítulo do nazismo na Europa e do genocídio que se seguiu naquele continente.
A fim de ilustrar tal preocupação, vale retornar no tempo, quando, em pleno processo expansionista da então Alemanha nazista, países como França e Inglaterra mostraram-se reticentes em realizar intervenções que pudessem livrar países como Áustria, Tchecoslováquia (atualmente, República Tcheca e Eslováquia) e Hungria das garras do autoritarismo.
Existem teorias sobre a não-intervenção da França e Inglaterra na Europa, como a que atribui tal omissão ao esgotamento financeiro e bélico das nações devido ao conflito mundial que havia se instalado em 1914-1919.
Mas, quem acreditava que o esgotamento financeiro e bélico serviria para impedir uma corrida armamentista mostrou-se um grave engano. Em poucos anos, sob o ditame dos nazistas, a República de Weimar se transformou num Estado autoritário, belicista e expansionista, determinado a vingar as “injustiças” do Tratado de Versalhes e a promover aquilo que achava ser sua missão cultural: subjugar povos, aniquilar vidas e sobrepor uma “raça ariana” aos demais grupos étnicos e culturais.
A reação da França e Inglaterra somente chegou após a invasão da Polônia, em setembro de 1939, o que os fatos demonstraram ter sido tarde demais. A Alemanha nazista já dominava a Europa Central e avançava em outras direções, como na Escandinávia (Dinamarca, Suécia e Noruega) e nos Balcãs. Tudo ia bem para os nazistas até a decisão de invadir a então União Soviética e o ataque japonês em Pearl Harbor, o que, além de trazer um poderoso inimigo do leste europeu para a guerra, acabou também por “convidar” os Estados Unidos da América para o conflito, ao lado da França e Inglaterra.
Da invasão da Polônia ao final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), milhões de vidas foram sacrificadas, uma soma financeira inimaginável foi gasta (o que, além de deixar as economias européias esgotadas, deslocou o centro do poder para os Estados Unidos da América) e um cenário mundial desolador se instalou. A tolerância com os nazistas ou a ausência da crença de que estes poderiam fazer “algo pior” deixou um legado traumático na comunidade internacional, o que serviu inclusive como a própria razão de ser da Organização das Nações Unidas (mesmo considerando as atuais críticas a sua organização e funcionamento) e da Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 1948.
Resta saber o que a tolerância ou até mesmo a simpatia de governos, como os ditos “revolucionários” na América Latina, pode causar, considerando as intenções do governo iraniano. Será que um período de sombras como o vivido em 1939-19145 vai se repetir? Será que as “revoluções tardias” não estão míopes para ver aquilo que para muitos parece ser óbvio?
A autodeterminação dos povos e das nações constiui um direito reconhecido internacionalmente, mas espera-se que não seja tarde, pois, em se tratando de matriz nuclear, os resultados catastróficos muito provavelmente serão piores.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O VESTIDO, A MÍDIA E A BRUXA NA FOGUEIRA: DA LUXÚRIA À CATARSE.


No dia 22 de outubro deste ano, Geyse Arruda, de 20 anos, foi hostilizada pelos colegas, funcionários e professores do curso de turismo da Universidade Bandeirante de São Bernardo (UNIBAN) por usar um vestido curto cor de rosa-choque.
O incidente teria começado dentro da sala de aula e se propagado pelos corredores da instituição, culminando com xingamentos e palavras ofensivas em face da jovem estudante, levando a polícia militar paulista a intervir, a fim de garantir a segurança física daquela.
De acordo com depoimentos da própria estudante e de testemunhas que estavam nas dependências da instituição de ensino superior, tanto os funcionários como os professores teriam sido irônicos, quedando-se inertes em proteger a aluna, enquanto ouviam-se os brados de “puta, puta, puta”.
Tal fato pode trazer à tona algumas questões.
A primeira delas se refere à maneira como alunos, funcionários e professores da UNIBAN se comportaram, ainda que a aluna de turismo tivesse provocado o incidente. Em primeira instância, o incidente faz lembrar o antigo argumento de defesa do estuprador em face da vítima culpada ou provocadora. Há citações de perguntas como “como estava vestida a vítima” para justificar atos como o estupro e reforçar a tese de que o criminoso teria agido por um impulso irresistível provocado pela vítima. Esta alegação pode inclusive inverter os papéis, colocando a vítima como culpara e vice-versa.
A tese defensiva acima descrita parece ter sido superada na defesa de criminosos em casos como o estupro e o atentado violento ao pudor, por exemplo, ainda que encontre alguns adeptos.
Outra questão diz respeito às reais motivações para as ofensas a estudante Geyse Arruda. Há quem afirme usar top, minissaia ou vestidos tão curto ou mais do que a estudante ofendida.
Do ponto de vista da subjetividade, fica difícil determinar as reais motivações para o incidente, mas as ofensas proferidas pelos colegas de universidade de Geyse Arruda parecem dar conta de uma dinâmica social que remete à catarse.
As ofensas verbais dos alunos podem ser compreendidas como uma violência utilitária, em que, a partir do sacrifício de uma pessoa, une-se o grupo, naquilo que foi descrito por René Girard em A violência e o sagrado. Tratar-se-ia, pois, segundo o referido autor, de uma violência intestina, o que encontra argumento convergente em Georges Balandier, em A desordem: elogio ao movimento.
A agressão de torcedores de um time rival, o extermínio de um grupo étnico considerado minoritário ou mesmo a malhação do boneco de Judas durante a celebração de Sábado de Aleluia que antecede à Páscoa católica serviria pra exorcizar os demônios e unir os membros de um determinado grupo. E o mesmo parece ter ocorrido com a estudante Geyse Arruda e os demais alunos da UNIBAN.
Poder-se-ia até recorrer à canção de Chico Buarque Geni e o zepelim como fundo musical para o incidente: “Joga pedra na Geni, joga pedra na Geni, ela é feita pra apanhar, ela é feita boa de cuspir, ela dá pra qualquer um, maldita Geni”.
Entretanto, ainda que se tratasse de uma “Geni”, a atitude dos alunos, funcionários e professores da UNIBAN pareceu não condizer com a democracia que se acredita viver. Ainda que Geyse Arruda fosse uma “Geni” (considerando-se o imaginário popular de que quem usa vestido curto “dá pra qualquer um”), nada parece justificar as ofensas por ela sofridas.
Numa democracia não se pode permitir o aviltamento da dignidade da pessoa humana, o que deveria ter sido reprimido pela UNIBAN, mas não foi. Ao contrário, funcionários e professores parecem ter assistido todo o incidente de modo passivo, o que ensejou a intervenção policial para garantir a integridade física da jovem estudante. E ainda que vestimenta de Geyse Arruda tivesse sido inconveniente, nada justifica as agressões sofridas por ela.
O incidente envolvendo a estudante Geyse Arruda e a UNIBAN atingiu proporções ainda maiores com a expulsão desta pela mencionada instituição de ensino e a cobertura da mídia nacional. Noticiários televisivos, jornais e até a mídia virtual, como o canal youtube, trataram de colocar o caso em destaque.
Mas, chega a ser paradoxal o comportamento de reprovação social pela utilização de um vestido curto por uma estudante de 20 anos (com um belo corpo, diga-se de passagem) frente a fenômenos midiáticos como o Big Brother Brasil (um dos campões de audiência) e de personalidades como a atriz, modelo e artista burlesca norte-americana Dita Van Teese, que por um strip-tease num copo gigante de Martini pode até cobrar aproximadamente 100 mil reais.
Mulheres seminuas aparecem em programas de televisão, como no citado Big Brother Brasil ou mesmo em programas humorísticos, transmitidos inclusive durante o chamado horário-nobre. Isso sem deixar de mencionar os trajes femininos contemporâneos de praia.
Enfim, pode-se pagar uma vultuosa soma para ver uma mulher se despir, aceita-se mulheres seminuas na televisão e convive-se com mulheres de biquínis pequenos nas praias, mas não se tolera uma mulher com um vestido curto numa universidade, durante uma aula de um curso noturno. E por que?
Será que Geyse Arruda representou algum perigo para o controle da libido de seus colegas de universidade? Será que Geyse Arruda, com belo rosto e corpo, representou alguma ameaça de ofuscar a beleza de suas colegas de universidade?
Seja como for, parece que Geyse Arruda interpretou (ainda que de maneira involuntária) o papel da herege que merece ser lançada à fogueira para aplacar o furor da sociedade, numa verdadeira cena de catarse. De mulher desejada, parece ter virado bruxa.
O caso envolvendo a estudante Geyse Arruda pode ter aflorado o imaginário coletivo da mulher culpada pelos males do mundo. O mito da mulher capaz de virar a cabeça dos homens e que por isso há que se reprimida, como as personalidades bíblicas Lilith e Eva, parece persistir, mesmo em comunidades ditas esclarecidas, como a comunidade acadêmica.
A direção da UNIBAN, ao expulsar a aluna Geyse Arruda (ainda que a instituição de ensino superior tenha voltado atrás em sua decisão) agiu como a Inquisição. Os atos da instituição de ensino falam por si próprios. E alunos, funcionários e professores se comportaram como o povo ávido pelo sofrimento da herege. Afinal, o sacrifício da vítima sacia a sede das massas e as absolve de seus pecados.
Geyse Arruda saiu das dependências da universidade coberta com um jaleco branco, como um sambenito (traje usado para identificar os acusados de heresia), e escoltada por autoridades policiais como quem se dirigia para a fogueira, após ter sido julgada pelo Inquisidor.
Ao que indica, em algumas universidades também há fogueiras prontas para serem acesas. E quem são as bruxas?

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

MUITO ALÉM DA LÓGICA


Numa quarta-feira, em março de 1980, cheguei ao edifício onde morava e me deparei com uma cena que jamais vou esquecer. Vi o Chico, nosso porteiro, bêbado e desolado.
Chico era um cara como tantos outros que tinham vindo do Nordeste, com sua família (mulher e sete filhos), em busca de uma vida melhor. Ele era da Paraíba.
Lembro que quando cheguei ao edifício, vi o Chico, naquele estado, sendo consolado por alguns moradores, inclusive pelo síndico, que parecia estar ora contrariado com o funcionário bêbado, ora com pena.
Mas, com pena de que?
Chico chorava copiosamente que nem uma criança.
Naquela quarta-feira, o improvável tinha acontecido, o Botafogo da Paraíba tinha vencido o Flamengo de Júnior, Zico, Andrade, Tita e Adílio (time que se seria campeão brasileiro naquele mesmo ano) por 2 a 1.
Nunca tinha perguntado ao Chico qualquer coisa sobre futebol. E pra mim a relação entre o Chico e o Botafogo da Paraíba parecia óbvia.
Pensei comigo: Pô, o cara é paraibano; lógico que deveria estar feliz com a vitória do time da terra dele.
Numa tentativa de alegrar o cara disse:
– Ô Chico, fica assim não rapaz, teu time da Paraíba venceu o Flamengo. Imagina, ver seu time vencer o Mengão, hein?
Foi aí que o Chico deu pra chorar mais ainda.
Fiquei constrangido. O tiro havia saído pela culatra.
Depois de mais choro, o Chico, com um tremendo bafo de cachaça, me falou o seguinte:
– Seu Carlos, eu torço é pelo Flamengo.
Foi aí que me dei conta de que estava enganado e que os “caras de lá” torciam pelos “times de cá”.
E ele ainda falou:
– O problema, seu Carlos, não foi o Botafogo ganhar o Flamengo. Marquei a vitória do Flamengo no jogo da loteria e com o Botafogo ganhando o jogo faltou um ponto pra eu fazer os treze!
O Chico tinha feito doze pontos na loteria esportiva e aquela zebra no Maracanã acabou com o sonho milionário do cara.
E o Chico dava a chorar.
O que dizer depois daquilo? Praticamente nada.
Coloquei a mão ombro dele e disse:
– É Chico... Bebe Chico, bebe.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

PAIS X ESCOLA: COMO FOI QUE OS PRIMEIROS SE TORNARAM INIMIGOS DA SEGUNDA.



Educai as crianças,
Para que não seja necessário punir os adultos
”. (Pitágoras)

"Não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor. Se a educação sozinha não transformar a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda". (Paulo Freire)

Há algum tempo, venho ouvindo relatos de educadores sobre suas angústias, no tocante às condições de trabalho, aos baixos salários, ao estresse e aos medos .
Destes relatos, um me chamou a atenção, considerando a recorrência e complexidade do tema. Um dia, uma amiga, que é educadora, me contou que um aluno da escola em que ela trabalha havia agredido uma colega de turma, dentro da sala de aula, na presença dos demais alunos. O que teria começado por uma discussão acabou gerando uma agressão física, cujos resultados foram graves.
Segundo me contou esta amiga, o problema havia sido gerado pelo fato da menina ter se negado em inserir o nome do agressor num trabalho de grupo, no qual este último sequer haveria participado. Diante da negativa da colega de turma, o menino partiu para a agressão física, causando na aluna lesão corporal que deixou marcas, além de um trauma psicológico.
E o conflito entre o aluno agressor e a vítima não parou por aí. Conta-se que ele chegou inclusive a ameaçá-la dentro de um ônibus, na saída da escola.
Frente à situação causada pelo aluno, a diretoria da escola decidiu transferi-lo de turno, além das medidas disciplinares cabíveis.
Nesta oportunidade, cabe registrar que o tal aluno possui um histórico de agressividade em relação aos seus colegas de escola. A agressão perpetrada em face da então colega de turma parece não ser um caso isolado do mencionado aluno.
Reitere-se que o aluno agressor não foi expulso da escola, mas tão somente transferido de turno, ou seja, do turno da manhã para o da tarde. Mas, em que pese a medida adotada pela escola, de tão somente transferir o aluno agressor de turno, a mãe deste aluno passou a reclamar junto à diretoria da escola, alegando que seu filho estava sendo prejudicado.
Parece óbvio que a tal mãe sequer se importou com as agressões sofridas por uma menina, provocadas por seu filho. Ao contrário, ela preferiu tão somente colocar seu foco sobre as supostas “injustiças” praticadas pela escola, mesmo tendo sido avisada sobre o comportamento agressivo e anti-social de seu filho.
O comportamento da mãe em tela traz à tona algumas questões que podem ser consideradas como relevantes no atual contexto.
A primeira questão que aqui pode ser suscitada diz respeito a velha história do “nós” e “eles”. A mãe do aluno parecia pouco se importar com as repercussões dos atos de seu filho. Somente interveio junto à escola para defender seus próprios “direitos” e os de filho. Para ela, tudo aquilo implicava constrangimento para seu filho.
O caso aqui narrado poderia até parecer um incidente isolado se não fossem outros relatos, como de uma mãe que, indignada pelo fato de uma professora ter retirado um aparelho de música de sua filha durante uma aula, resolveu se dirigir a uma Delegacia de Polícia, a fim de incriminar a docente e responsabilizar a instituição de ensino, e de uma mãe que agrediu a professora de sua filha depois de saber que a mesma havia repreendido a jovem por usar aparelho celular durante uma aula.
Pior para a primeira mãe, que ainda teve que ouvir críticas da delegada de polícia, em plena sede policial, e para a segunda que foi processada e condenada a pagar indenização por danos morais em favor da professora agredida.
Outra questão que aqui pode ser levantada se refere ao que se pode chamar de fenômeno da “terceirização da educação” por parte dos responsáveis legais de crianças e adolescentes.
Vive-se em tempos cuja demanda por status profissional e condições econômicas de subsistência se faz cada vez mais crescente. Homens e mulheres encontram-se submetidos tanto à pressão da manutenção do status quo como das demandas profissionais, que servem para sustentar suas respectivas famílias, frente ao tempo que parece curto . Ainda que um dia tivesse 48 horas, ainda assim não seriam suficientes para dar conta dos compromissos.
Babás, vizinhos, amigos, avós e a escola fazem parte deste processo de “terceirização da educação”, enquanto os verdadeiros responsáveis encontram-se ocupados.
Inegável que a escola possui responsabilidade na educação das crianças e dos adolescentes, até mesmo por força da legislação vigente no país. A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, em seu artigo 205, a Lei n° 9.394/1996 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), em seu artigo 2°, e a Lei n° 8.069/1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente), em seu artigo 4°, assim estabelecem.
Além da garantia de boa qualidade, as instituições públicas e privadas de ensino são responsáveis pela integridade física e psíquica de seus alunos. Qualquer abalo à integridade física ou moral da criança ou adolescentes que se encontre sob a guarda de uma escola pública ou privada, ainda que transitória, acarreta o dever de reparar o dano, com base naquilo que juridicamente se denomina culpa in elegendo.
Se para a responsabilização das escolas públicas se aplica o artigo 37 da Constituição da República Federativa do Brasil, para as escolas privadas rege o artigo 14 da Lei n° 8.078/1990 (Código de Defesa do Consumidor). Mesmo ante as críticas, a incidência da responsabilidade civil objetiva do artigo 14 da Lei n° 8.078/1990 às escolas privadas se dá em decorrência da natureza de prestação de serviços de sua atividade educacional.
Assim, quando ocorre algo à criança ou ao adolescente nas dependências de uma escola pública ou privada que lhe cause danos de ordem material (física ou patrimonial) ou moral, nasce o dever de indenizar por parte desta mesma escola. E nossos Tribunais de Justiça já têm se pronunciado neste sentido.
Entretanto, cabe questionar se a responsabilidade da escola, em alguns casos, seria exclusiva sua.
Imagine-se um caso em que um adolescente agride fisicamente outro adolescente que vem a sofrer seqüelas. Caberia exclusivamente à escola o dever de reparar o dano? E os responsáveis legais do adolescente agressor?
Acredito que, por força do próprio do caput do artigo 205 da Constituição da República Federativa do Brasil, do caput do artigo 2° da Lei n° 9.394/1996 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) e do caput do artigo 4° da Lei n° 8.069/1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente), a família (leiam-se os responsáveis diretos e indiretos das crianças e adolescentes) é solidariamente responsável ao Poder Público e às instituições de ensino (enquanto parte da sociedade) pela educação e pelos atos de seus filhos.
Atribuir exclusivamente à escola o dever de reparar o dano, excluindo-se de tal responsabilidade os responsáveis legais do agressor, ao meu sentir, parece uma injustiça e uma deturpação à mentalidade da lei.
O fato de entregar a criança ou adolescente a uma instituição de ensino para sua formação intelectual e ética não pode licenciar seus responsáveis (pais, avós, tutores, etc.) das atribuições que lhe são cabíveis.
Ademais, há que se ressaltar que a agressão cometida por um adolescente implica naquilo que a Lei n° 8.069/1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente) denomina como ato infracional. Tal ato consiste numa conduta análoga a um crime ou contravenção penal cometido por pessoa adulta (art. 55 da Lei n° 8.609/1990).
Portanto, cabe um alerta para os responsáveis que acham que seus filhos não podem ser responsabilizados por condutas agressivas e danosas. Mesmo penalmente inimputáveis (art. 56 da Lei n° 8.069/1990), por serem menores de 18 anos, aos adolescentes podem ser aplicadas as chamadas medidas socioeducativas (art. 112 da Lei n° 8.069/1990), como: advertência, obrigação de reparar o dano, prestação de serviços à comunidade, liberdade assistida, inserção de regime de semiliberade ou internação em estabelecimento educacional.
Estas discussões pode inclusive servir de pauta para outro debate, mas, por ora, o que se quer resgatar aqui é a compreensão da aparente rivalidade que se estabeleceu entre os responsáveis legais de crianças e adolescentes e as escolas que estes últimos frequentam.
Afinal, o que houve?
Lembro-me quando era criança. Tinha por hábito conversar com os colegas de turma, mesmo durante as aulas. Talvez tivesse uma disposição para a socialidade além do normal, o que merecia repreensão por parte dos professores.
Nunca fui de desafiar um professor, apenas gostava de me distrair e distrair os colegas quando uma disciplina não me interessava. Anormal, garoto mau ou aluno ruim? Não, apenas fazia aquilo que crianças praticam até os dias atuais.
Devo admitir que já fui motivo de conselho de classe e reunião com pais por causa de minhas conversas durante as aulas, mas nunca (e isso faço questão de frisar) dei ensejo à reclamação por agressividade ou comportamento anti-social, seja com relação aos professores ou a colegas de escola.
E minha mãe, uma jovem viúva que trabalhava fora cerca de oito horas por dia para sustentar dois filhos, o que fazia? Não me batia, mas me deixava de castigo, deixando claro que aquilo se devia à reincidência de conversas em sala de aula.
Minha mãe era então uma carrasca? Óbvio que não. Apenas tentava me mostrar a importância dos limites, da responsabilidade e do respeito para com os outros.
Somente uma vez minha mãe interveio em meu favor. E foi quando realmente uma professora extrapolou sua competência, privando-me de lanchar porque não havia feito um dever de casa por completo.
Ouvindo os relatos de várias pessoas, fico me perguntando como os responsáveis legais de crianças e adolescentes se tornaram rivais das escolas onde estes últimos encontram-se matriculados. O que houve?
Se por um lado parece haver o reconhecimento da importância da educação em instituição oficial de ensino, pública ou privada, por outro, parece existir a ausência de reconhecimento da relevância do papel desempenhado por estas mesmas instituições na construção moral e ética de crianças e adolescentes.
Entre os responsáveis legais de crianças e adolescentes e as escolas parece se reproduzir a máxima de que “pra nós, todos os direitos; pra eles, todos os deveres”. Enquanto aos primeiros cabe o direito de ver seus filhos preparados para o mercado de trabalho, à escola cabe o cumprimento de tal expectativa.
Mas, quanto aos limites, por que os responsáveis legais de crianças e adolescentes têm se mostrado resistentes em compartilhar tal atribuição com a escola? Por que é que a escola não pode punir crianças e adolescentes agressivos ou com comportamento anti-social? Trocar um aluno agressor que ameaça os colegas de turma de turno significa um constrangimento injusto? E as vítimas, que as defende? A impunidade de crianças e adolescentes agressivos não contribui para que os mesmos tornem-se adultos pouco sociáveis?
À escola parecem ter ficado depositadas expectativas além de sua competência. Além de reproduzir as dinâmicas sociais extra-muros, a escola encontra-se envolvida com questões referentes à violência, à falta de ética, à ausência de solidariedade e ao padrão efêmero de afetividade .
Por certo, não há que se excluir das instituições de ensino os deveres que lhes são inerentes, mas colocar sobre elas todas as responsabilidades pela educação de crianças e adolescentes implica num desequilíbrio no processo de construção intelectual e ética destas.
Percebem-se inúmeros os relatos de responsáveis que adentram às escolas exigindo o cumprimento de direitos para suas crianças e adolescentes (os quais parecem conhecer muito bem o Estatuto da Criança e do Adolescente, neste sentido), bem como criticando alguma medida disciplinar aplicada por àquelas nas hipóteses de comportamentos agressivos ou anti-sociais, mas também parecem ser raros os relatos sobre responsáveis que procuram a escola para dialogar quando seus pupilos causam danos às instituições ou a terceiros.
Há casos narrados de crianças e adolescentes que chegam inclusive a agredir verbal e fisicamente seus educadores (diretores, professores, etc.). E os responsáveis legais por estes jovens, o que têm feito?
Achamos que, porque pagamos impostos e/ou mensalidades escolares, podemos exigir que as escolas públicas e privadas preparem nossos filhos para o vestibular e o mercado de trabalho, mas não podemos aceitar práticas pedagógicas que sirvam para tornar nossos jovens seres sociáveis. Não estaríamos desmerecendo as instituições que escolhemos para serem nossas parceiras na construção intelectual e ética de nossos jovens?
Será que não estamos sendo permissivos demais em relação às nossas crianças e adolescentes? E será que isso se dá pelo fato de nos sentirmos culpados pela nossa ausência diária, pois precisamos dar conta dos inúmeros compromissos e sustentar nossa família?
Será que, com isso, não estamos criando uma geração de jovens tiranos, que acham que tudo podem e nada devem?
Não estamos contribuindo para a construção de uma “ditadura do indivíduo”, em decorrência de nossos traumas com relação à “ditadura do establishment (Estado, padrões familiares, rigores sociais, etc.)? Ou seja, saímos de uma extremidade da corda para a outra?
Como passamos a enxergar a escola como nossa rival no processo de educação e construção intelectual e ética de nossas crianças e adolescentes? Não estaria na hora de reconhecer as competências das instituições de ensino no processo de educação de nossas crianças e adolescentes?
Desejamos que nossas crianças e adolescentes sejam somente bons advogados, médicos, comerciários, empresários, funcionários públicos, etc., ou, além disso, bons cidadãos?
Estas são algumas perguntas cujas respostas provavelmente nos façam compreender a importância de caminharmos junto à escola e não contra ela.
Talvez esteja na hora de um exercício de reflexão, para o bem de nossas futuras gerações.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O CONTROLE DA PALAVRA: UMA GRANDE ILUSÃO.


Quando, em 13 de agosto de 1961, os líderes da então República Democrática Alemã (RDA, ou Alemanha Oriental) construiram do Muro de Berlim, muito provavelmente, tinham em mente que aquela obra de arame farpado, aço e concreto sacramentaria a separação entre os blocos capitalista e socialista, com este último bloco sob a hegemonia da então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).
A República Democrática Alemã (RDA) se via ameaçada em sua existência, eis que cerca de 2 mil fugas diárias tinham sido registradas até o dia 13 de agosto de 1961, ou seja, 150 mil desde o começo do ano e mais de 2 milhões desde que fora criada (1).
Além disso, naquele contexto, a Europa se encontrava dividida, assim como o resto do planeta. E a possibilidade de insurreições como o levante húngaro de 1956 representava um inconveniente ao domínio soviético. A construção do Muro de Berlim marcou simbolicamente a separação geopolítica entre “nós” e “eles”.
Repentinamente, alemães ocidentais e orientais foram privados de manter comunicação. O sistema de transportes entre as duas partes da Alemanha foi subitamente interrompido. Avós, pais, filhos e amigos não mais puderam transitar e se comunicar, haja vista o "aperto" por parte da porção oriental da Alemanha.
Mais do que manter a segurança do bloco socialista europeu das “degenerações” do mundo capitalista, pelo isolamento, o Muro de Berlim garantiu (ainda que relativamente) a segurança das informações que davam conta da rotina político-social dos regimes totalitários da União Soviética e da chamada Cortina de Ferro. Os desmandos e as atrocidades cometidas por Joseph Stalin, frente aos dissidentes políticos e às minorias, assim como pelos governos que se seguiram na União Soviética, por Nicolae Ceausescu, na Romênia, e Erich Honecker, na Alemanha Oriental, podem servir como exemplos de beneficiários de um sistema que buscava a proteção do isolamento político e o controle das informações.
No entanto, paralelamente ao ideal de isolamento do bloco socialista europeu, o planeta se encontrava em pleno período conhecido como Guerra Fria, onde os Estados Unidos da América e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas fracionavam o mundo com o fomento de conflitos locais como a Guerra da Coréia (1950-1953), a Guerra do Vietnã (1959-1975), e aquele que, para alguns, por pouco, não lançou o mundo todo pelos ares: o embate pelo envio dos mísseis soviéticos a ilha de Cuba, em 1962, no que ficou conhecido como a Crise dos Mísseis.
Vale registrar a crise dos mísseis em Cuba, considerando a descoberta por parte dos Estados Unidos do envio de tais armas, graças a uma rede de informações que envolvia pessoas e equipamentos como os aviões U2. Por parte da mídia, a obtenção e divulgação destas informações somente eram possíveis pelos jornais, revistas, rádio e televisão. Junto a isso, as informações circulavam por cartas, fax, etc.
No âmbito político, o Muro de Berlim foi posto abaixo em novembro de 1989, pondo fim a divisão da Alemanha. O regime de Nicolae Ceausescu chegou ao fim com sua fuga e execução em dezembro daquele mesmo ano e, o que para alguns poderia parecer improvável, aconteceu: o monólito soviético desabou. A então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) foi desfragmentada em 15 repúblicas, em dezembro de 1991, com o processo de abertura político-econômica que se instalou (glasnost e perestroika).
Assim, o que parecia improvável para grande parte da opinião pública internacional, pelo menos até o início da década de 1980, aconteceu. E a pergunta que se instalou foi se países como Cuba, China e Coréia do Norte, por exemplo, suportariam os impactos da transformação ocorrida no sistema socialista europeu encabeçado pela então maior potência socialista. Isto porque, a extinção da República Democrática Alemã (ou Alemanha Oriental) e da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), no fim da década de 1980 e início da década seguinte, representou o fim de um símbolo, de uma era: a Guerra Fria.
Na mesma esteira, restou uma incógnita acerca da força dos movimentos sociais frente a regimes como o soviético, o alemão oriental e o romeno. Em que pese a idéia de que o processo de abertura promovido estivesse associado às elites políticas, como sustenta Meyer (2) não há como negar o processo de corrosão do sistema que já havia se instalado entre as massas, num processo de efervescência
No caso da República Democrática Alemã (RDA), havia uma pressão ao sistema pelas bases, que atingiu um grau crítico quando começaram a ocorrer evasões descontroladas da população rumo à porção ocidental da Alemanha, via Hungria e Tchecoslováquia (3), o que, arame farpado, muro, cerca ou temor de fuzilamento não mais conseguiam impedir.
A colocação do Muro de Berlim abaixo teve um impacto muito mais simbólico do que propriamente militar ou político. O que estava em jogo era um dos direitos mais fundamentais dos seres humanos: a liberdade.
A queda do Muro de Berlim possibilitou a liberdade de locomoção e de comunicação. Gerações separadas por marco geográfico feito de arame farpado, aço e concreto, com a queda do Muro, finalmente, tiveram a oportunidade de se comunicar.
No caso romeno, a situação saiu de controle, quando Nicolae Ceausescu ordenou que o exército e sua política secreta abrissem fogo contra os manifestantes anti-comunismo que se aglomeravam em frente a sede do governo, em Bucareste. O tiro saiu pela culatra, eis que os membros das duas forças, que davam apoio ao regime de Ceausescu, se negaram a cumprir tais ordens, juntando-se à massa de manifestantes. Parecia uma reconstituição da Revolução dos Cravos, ocorrida em Portugal, em 1974, que pôs fim a regime ditatorial de Salazar.
Vale registrar que a queda do Muro de Berlim, a implosão do monolito soviético e o colapso dos regimes socialistas na Europa se deram justamente no período em que as chamadas novas tecnológica da comunicação e informação começavam a ganhar uma dimensão em nível global. A rede mundial de computadores (internet) serviu para consolidar uma Era Líquida (4), onde os limites não existem mais, especialmente aqueles construídos com cimento e tijolos.
Chegando-se ao século XXI, parecem ainda existir regimes que a todo custo tentam controlar a circulação da comunicação e das informações, sejam estes regimes totalitários ou democráticos. Sendo que, entre os primeiros, vale assinalar a República Islâmica do Irã, instituída pela revolução ocorrida no ano de 1979, que culminou com a queda do governo do Xá Reza Pahlevi (e sua fuga para o Ocidente) e o retorno do Aiatolá Khomeini, do exílio.
A revolução islâmica no Irã, em 1979, estabeleceu um Estado teocrático, submetendo o sistema político-jurídico e a cultura às leis religiosas do Corão (5). Em que pesem as acusações de corrupção e de opressão do regime anterior, a instituição da República Islâmica do Irã, com o apoio das massas (com destaque para os intelectuais e estudantes universitários, de ambos os sexos), solapou as liberdades da população. A vestimenta e a fala tornaram-se objetos de controle do Estado. A inadequação destas duas poderia causar a aplicação de castigos simples e até a pena morte, segundo os ditames das leis que passaram a vigorar daquele momento em diante.
Sob o prisma das democracias, cabe mencionar a consolidação do Estado Democrático de Direito pela República Federativa do Brasil, com o advento de sua Constituição Federal, em 1988.
Dentre os dispositivos concernentes às garantias individuais, no artigo 5° da Constituição da República Federativa do Brasil vigente, há a prescrição do pensamento, da liberdade de expressão e do acesso à informação, conforme se percebe pela leitura dos incisos IV e IX. Mas, estes mesmos incisos tratam da liberdade de pensamento e expressão como direitos relativos na medida em que estabelece limites para quem os exerce, e o direito ao agravo e à indenização por quem sofre abalo em sua imagem ou honra (6).
Há na República Islâmica do Irã uma pressão crescente das massas por abertura do regime, cujo objetivo primordial consiste na liberdade de expressão, o que tem ido de encontro aos interesses da classe dirigente daquele país, além de colocá-lo em uma tensão sócio-política. A tensão chegou a tal ponto que, no primeiro semestre de 2009, ocorreram vários conflitos, envolvendo agentes do governo, em um lado, e a massa composta em sua maioria por intelectuais e universitários, no outro lado.
Herdeiros dos intelectuais e universitários responsáveis pela queda de Xá Reza Pahlevi e a ascensão ao poder de Aiatolá Khomeini, em 1979, os intelectuais e universitários iranianos de hoje rejeitam abertamente o controle do Estado sobre aquilo que no Ocidente se convencionou chamar de Liberdades Individuais. A liberdade de expressão tornou-se o maior anseio destas classes, seguida de perto pelo sonhado direito das mulheres de abolir o uso obrigatório do chador (7), de trabalhar fora e de ter as mesmas oportunidades que os homens.
O temor da ocidentalização por parte do governo iraniano relaciona-se às transformações culturais tidas como inconcebíveis numa República Islâmica, cujo regime se assenta em bases religiosas fundamentalistas. E, para se evitar as tentações da “degradação da cultura ocidental”, controlar a fala e o corpo parecem ser os únicos mecanismos ao alcance do regime vigente da República Islâmica do Irã.
Mesmo com a censura do governo iraniano aos meios de comunicação, durante os distúrbios que eclodiram em junho de 2009, ao Ocidente chegaram imagens consideradas como aterradoras, como a morte de Neda Agha-Soltan, uma manifestante iraniana, com um tiro no peito, disparado por pessoas supostamente ligadas ao governo do país. As imagens foram exibidas pelos canais de televisão no Ocidente, graças à astúcia de alguns iranianos que as gravaram e as enviaram pela rede mundial de computadores (internet).
Além das imagens, inúmeras mensagens chegam ao Ocidente via Twitter (8), uma ferramenta da tecnologia da comunicação e informação que permite o envio de mensagens pelo aparelho de telefone celular.
Cabe ressaltar que os distúrbios ocorridos no Irã parecem ser a gota d’água (ou pelo menos quase, até então) de um movimento que pretende a abertura social e política, bem como contesta o resultado supostamente fraudulento da eleição para presidente do país, vencida por Mahmoud Ahmadinejad (9).
Quanto à República Federativa do Brasil, um debate tem sido travado acerca da utilização da rede mundial de computadores (internet) por candidatos aos cargos nas casas executivas e legislativas federal, estaduais e municipais. Se, de um lado existem aqueles que se manifestam contrários à utilização de tal recurso, alegando que isso poderia causar problemas, tais como uma liberdade exagerada de divulgação de campanhas e a ausência de controle dos órgãos oficiais, em outro lado, há pessoas que apóiam a iniciativa do uso das chamadas (novas) tecnológicas da comunicação e informação (TCIs), de modo que, mais uma vez, há um debate que gira em torno binômio liberdade-controle.
Importa mencionar que a utilização da rede mundial de computadores (internet) no Brasil vem ocorrendo no âmbito político de maneira crescente, especialmente a partir das últimas eleições para os cargos de prefeitos, com destaque para a divulgação da campanha do candidato Fernando Gabeira, então candidato à prefeitura do Rio de Janeiro, no ano de 2008 (10). Além disso, existem páginas (sites) especializadas na divulgação dos dados referentes à vida política dos candidatos eleitos, como àqueles que dizem respeito aos seus comparecimentos às casas legislativas, ao número e tipos de projetos de leis apresentados, relevância destes mesmos projetos, etc.
Mesmo com as reservas que se deve tomar na análise de dados captados na rede mundial de computadores (internet), não se pode negar a relevância de tal instrumento de comunicação e informação no processo de transparência política num país que se autodenomina um Estado Democrático de Direito, como, no caso, o Brasil.
As chamadas novas tecnologias da comunicação e informação dinamizam a fala, que anteriormente só seria possível pelo encontro físico de dois ou mais agentes. Por muito tempo, a fala esteve associada à identificação dos agentes. Com as novas tecnologias, permite-se até o anonimato. Alguns fatos levam a crer que a mensagem importa mais do que seu transmissor, mesmo porque, em muitos casos, existe a impossibilidade de se ver a face de quem fala.
Teóricos se debruçam na análise sobre o poder da fala, como o faz Maffesoli (11), que a considera como um fenômeno ligado à dissidência, a qual, utilizando da astúcia, da dissimulação, abala a estrutura (violenta) do controle das instituições e organizações. Na concepção do pensador francês, a fala assume um caráter político, de abalo às estruturas, ao mesmo tempo em que se revela com um meio de troca social, naquilo que qualifica como orgiasmo.
Interessante notar que uma das principais preocupações de governos totalitários, assumidos ou travestidos de democracias, consiste em controlar a fala, seja ela oral ou escrita.
Controlar a escrita é mais fácil, mesmo porque se trata de algum palpável, que pode ser rasurado, apagado ou utilizado como prova em acusações. Com relação à fala, o mecanismo de controle é diferente. Para silenciar a fala, somente silenciando seu autor. Se bem que há pessoas que não têm o menor pudor em silenciar outras pessoas, ceifando-lhes a vida. Mas há que se reconhecer que os inconvenientes das repercussões podem ser maiores.
Daí talvez porque Yoani Sanchez ainda não tenha sucumbido na ilha de Fidel. Autora de um blog chamado Generación Y, Yoani posta em seu blog textos pertinentes ao cotidiano das pessoas em Cuba, lugar que todos aqueles não-alienados sabem que pessoas vivem, há muito tempo, em sérias dificuldades materiais.
Ainda que declare não fazer militância política contra o regime governamental cubano, certo é que as palavras de Yoani não são ignoradas pela opinião pública internacional, ávida por assistir a abertura daquele regime, o qual, querendo ou não, acontecerá, em mais ou menos dias.
O interessante é que Yoani não consegue ver suas postagens em seu próprio blog, haja vista o bloqueio a este tipo de mecanismo pelo governo cubano. Contudo, ainda assim a autora do blog Generación Y envia suas postagens para amigos no exterior, os quais dão conta do serviço para ela.
O que as novas tecnologias da comunicação e da informação fazem é colocar as mensagens num campo especial, entre a fala e a escrita. Do mesmo modo em que as mensagens – e-mails, scraps, torpedos, tweets, etc. – não podem ser negadas como escrita, também não podem ser negadas como uma espécie de “quase-fala”, dada a velocidade com que são transmitidas.
O twitter, por exemplo, possibilita que mensagens sejam transmitidas de aparelhos de telefones celulares multifuncionais. E é isso que a massa de estudantes na República Islâmica do Irã vem fazendo, burlando as tentativas do governo em reprimir as expressões.
E neste campo, a criatividade fala mais alto. Mensagens rápidas e “econômicas” são chaves para a comunicação. Vc ñ acha? Vj vc mesmo.
Com a ajuda destas novas tecnologias, “palavras são como o vento”, como já dizia o ditado popular. E como controlar o vento?
Parece que vive-se numa era em que a palavra e a escrita quase se confundem. A velocidade e volatilidade das mensagens escritas as tornam uma espécie de "quase fala".
Países como Irã, Brasil e Cuba foram aqui mencionados para ilustrar como as tentativas de se controlar a palavra parecem, frente às novas tecnologicas da comunicação e informação, ser inócuas. Existem pendengas em outros países como Argentina e Venezuela.
Na Argentina, o casal Kischner é acusado de fazer censura e perseguir a imprensa, como no caso que envolveu o jornal El Clarín. Na Venezuela, Chavez fechou emissoras de televisão e rádio, bem como promoveu alterações na legislação nacional, com o intuito de calar os opositores.
Diante do que foi aqui abordado, uma série de perguntas podem ficar no ar e, dentre um número quase infinito delas, vale trazer as seguintes:
1) Se a rede mundial de computadores (internet) tivesse sido implementada e atingisse o grau de desenvoltura como nos dias atuais, já a partir da década de 1960, quando o Muro de Berlim foi construído, a chamada Cortina de Ferro teria durado tanto?
2) Incidentes como a Crise dos Mísseis em Cuba teriam chegado àquele ponto crítico se houvesse um tráfego considerável de informações virtuais, e não pela utilização de espiões humanos ou mecânicos?
3) O monólito soviético não teria sido implodido mais cedo?
4) Até quando governos como o iraniano conseguirão barrar as tentativas de abertura por parte da massa de intelectuais e estudantes, especialmente no que se refere à consolidação do direito de liberdade de expressão? E mais, até quando o próprio governo da República Islâmica do Irã conseguirá sobreviver, nos moldes de como foi criada há cerca de 30 anos?
5) Qualquer tentativa de controle da comunicação e informação em período de campanhas eleitorais, por parte de governos considerados como democráticos, como no caso brasileiro, surtirá algum efeito prático com a utilização da rede mundial de computadores (internet) em larga escala, tanto pelos candidatos a cargos eletivos como pelos eleitores?
6) Diante das novas tecnologias da comunicação e informação, considerando-se ainda a velocidade e volatilidade das mensagens, as tentativas de controlar a palavra (ou a quase-fala) surtirão algum efeito prático?
No caso particular da República Federativa do Brasil, com a regulamentação do uso dessas novas tecnologias no âmbito da política, parece haver um reconhecimento da defasagem da idéia de controle em relação à dinâmica dos fatos sociais e das inovações tecnológicas.
Assim, como as perguntas, há uma gama de respostas.
Mas uma coisa parece fazer sentido, em tempos em que a comunicação e circulação de informações se fazem virtualmente: o controle da palavra é atualmente uma grande ilusão, senão, uma das maiores.

Notas:
(1) Vide em http://www.dw-world.de/dw/article/0,,608522,00.html, acessado em 18/09/2009.
(2) Cf. Meyer Michael. 1989: o ano que mudou o mundo – a verdadeira história da queda do muro de Berlim. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2009.
(3) A Tchecoslováquia foi dividia em 1° de janeiro de 1993 em dois países independentes: República Tcheca e Esvoláquia.
(4) Expressão utilizada em alusão à liquidez do amor, do medo e do tempo, por Zygmunt Bauman, respectivamente em suas obras Amor Líquido (2004), Vida Líquida (2007), Tempos Líquidos (2007) e Medo Líquido (2008), todos pela Jorge Zahar Editores.
(5) Utilizam-se os termos Corão ou Al Corão para designar o documento de maior importância seguido pelos adeptos da religião muçulmana.
(6) Juridicamente, a imagem é tutelada como honra objetiva, ou seja, a percepção que uma pessoa física ou jurídica exerce na sociedade, ao passo que a honra se refere à honra subjetiva, enquanto seja compreendida como o sentimento que cada pessoa guarda de si mesma.
(7) Véu tradicionalmente usado pelas mulheres que cobre a cabeça, deixando os cabelos, os ouvidos e o pescoço cobertos, e apenas à mostra o rosto.
(8) Twitter é uma rede social e servidor para microblogging que permite aos usuários que enviem e leiam atualizações pessoais de outros contatos (em textos de até 140 caracteres, conhecidos como tweets), através da própria Web, por SMS e por softwares específicos instalados em dispositivos portateis como o Twitterberry desenvolvido para o Blackberry. Extraído de http//pt.wikipedia.org/wiki/Twitter, acessado em 18/09/2009.
(9) Nas eleições para presidente do Irã, em 2009, supostamente marcadas por fraudes, Mahmoud Ahmadinejad venceu o candidato Mir Hossein Mousavi, apoiado principalmente por intelectuais e universitários.
(10) Sobre Fernando Gabeira e as eleições municipais, vide o texto Vozes, neste mesmo blog, em arquivos.
(11) Cf. Michel Maffesoli. A Dinâmica da Violência. São Paulo: Revista dos Tribunais, Edições Vértice, 1987.

DÉCADA DE 1980: QUANDO TODOS PODIAM SER CAMALEÕES

Vira e mexe, ouve-se alguém dizer que a década de 1980 foi uma “década perdida”.
Muito provavelmente, quem se refere à década de 1980 como “perdida” assim o faz porque possui um fascínio extremado às décadas que a antecederam, especialmente as de 1960 e 1970, ou desconhece a história.
Não há como negar a agitação cultural (da chamada contra-cultura) da década de 1960, no mundo e no Brasil. Movimentos sociais contra a guerra no Vietnã, em defesa do meio ambiente, em busca de igualdades raciais e sexuais, pela liberdade política, etc. deixaram suas marcas. Vivia-se na expectativa das transformações da Era de Aquários.
A Europa estava incendiada pela Primavera de Praga e pelo Maio Francês, ambos em 1968.
Nessa atmosfera, a geração beatnik (1) clamava por mais espaço em sociedades tidas como conservadoras. A juventude queria, a partir de então, assumir o poder (lembre-se do lema francês "nous sommes le pouvoir") ao mesmo tempo em que curtia os prazeres da vida. Se por um lado, havia o desejo de transformar o mundo, por outro, queria-se viver o presente – fazer sexo livre, consumir drogas e entregar-se ao ócio. Tudo isso, ao som dos The Beatles (2), The Rolling Stones, The Who, The Doors, Jimi Hendrix, Jeanis Joplin, entre outras personalidade e bandas.
“Faça amor, não faça Guerra” e “Paz e Amor” eram alguns dos lemas entoados ao final da década de 1960. O Festival de Woodstock (3) sintetizou, no apagar das luzes da década de 1960, o sonho de uma geração por um “mundo alternativo”, o que foi seguido pela juventude brasileira.
No caso do Brasil, além das influências das manifestações culturais externas, a juventude (principalmente da classe média urbana) encontrava-se envolvida pela questão política concernente à supressão progressiva das liberdades pelo regime militar, instituído pelo golpe na madrugada de 31 de março para 1° de abril de 1964. Uns jovens dedicavam-se à luta armada, na esperança de fazer frente aos militares e à influência norte-americana, como Fernando Gabeira e Franklin Martins. Enquanto isso, outros jovens utilizavam a música como sinal de protesto, com destaques para Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Os Mutantes, Geraldo Vandré, etc.
Movimentos culturais como a Tropicália representaram vozes da contra-cultura brasileira. Contestar o establishment era palavra de ordem.
Com “alegria, alegria”, e “aquele abraço”, “caminhando e cantando”, ainda que “meio desligado”, pretendia-se chamar a atenção para aquele “cálice”. Havia o sonho de um “mundo melhor”.
Passados os desencantos da década de 1960, chegou-se à década de 1970 sob o rock pesado de bandas como Deep Purple e Led Zeppelin, e, mais tarde, ao ritmo da disco music de KC & The Sunshine Band, The Begees e Donna Summer.
No Brasil, o confronto de grupos de esquerda armados, de um lado, e militares e paramilitares, de outro, continuavam a dar o tom da política, com os primeiros levando desvantagem. Médici, Geisel e seus respectivos generais faziam de tudo para que o ideal de Segurança Nacional e Progresso não fossem abalados. A “benevolência” dos militares de plantão com relação aos opositores políticos chegou ao ápice por conta de lemas como “Brasil, ame-o ou deixei-o”.
Enquanto isso, a partir da segunda metade da década de 1970, o Studio 54, em Nova Iorque, começava marcar época, servindo de modelo para boates no mundo, como algumas do Rio de Janeiro e em São Paulo (4).
A era do sexo, drogas e rock ‘n roll deu lugar a era do sexo, drogas e disco music. Camisas com “gola gaivota”, calças com bainhas boca-de-sino, sapatos com saltos altos e meias soquetes vestiam corpos ávidos por muita dança e por se fazer aparecer. Mas, junto com esta “nova era”, o fantasma da AIDS começava a deixar seus sinais.
No caso particular brasileiro, a década de 1970 foi, sobretudo ao seu final, marcada pelo movimento de abertura política que culminou com o processo de Anistia, Ampla, Geral e Irrestrita (5), e a volta dos exilados no início da década de 1980.
Não há como esquecer a chegada de nossos exilados em aeroportos como o Galeão (atual Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim), na Ilha do Governador, Rio de Janeiro, em meio a palmas, cantorias, abraços e lágrimas. A canção O Bêbado e A Equlibrista, composta por Aldir Blanc e João Bosco, e cantada na voz de Elis Regina virou até uma espécie de hino deste momento.
A sociedade brasileira que parecia cansada de tanta desilusão, opressão e violência, recobrou seu fôlego com o retorno dos exilados, com a derrocada da ditadura militar e com a efervescência política e cultural que se seguiu. Afinal, foram vinte anos sob o porrete de governos autoritários. O grito de liberdade estava entalado na garganta. Havia chegado a hora de dar o grito.
No entanto, ainda havia o que ser feito. Havia a necessidade de se reconstruir uma democracia que foi abortada prematuramente na madrugada de 1° de abril de 1964. E, por certo, a cultura não haveria de ficar de fora deste processo.
Assim como na década de 1960, a juventude de 1980 também buscava a afirmação de sua identidade e um papel na transformação em uma sociedade como a brasileira.
No campo da música, por exemplo, juntamente com os astros internacionais, entraram em cena diversas bandas brasileiras, cujos estilos variavam – Legião Urbana, Os Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Blitz, Kid Abelha e Os Abóboras Selvagens, Titãs, Biquini Cavadão, etc.
Um referencial no movimento cultural da década de 1980 diz respeito à realização do festival Rock in Rio, em 1985. De 11 a 20 de janeiro daquele ano, várias bandas e astros nacionais e internacionais dividiram o palco montado na chamada Cidade do Rock, na divisa dos bairros da Barra da Tijuca e Jacarepaguá.
Deu de tudo, de roqueiros como Queen, Iron Madden, Nina Hagen, Whitesnake, AC/DC, Scorpions, Ozzy Osborne e Barão Vermelho, passando pelos pops do Paralamas do Sucesso e do Kid Abelha e Os Abóboras Selvagens, pelos regionais Alceu Valença e Elba Ramalho, chegando até em bandas do estilo new wave, como B-52’s e Go-Go’s (6). Uma verdadeira Torre de Babel musical.
Para quem se dispusesse a transitar entre as tribos na década de 1980, havia um vasto mundo. Punks, Darks, New Waves, Metaleiros, etc.
O início do movimento punk data da segunda metade da década de 1970. Questões sociais, econômicas e políticas contribuíram para o aparecimento na Europa e, posteriormente, nos Estados Unidos, de jovens descontentes com o sistema vigente.
Desde então, as ruas de cidades como Londres, Liverpool, Manchester, Berlim, entre outras, começaram a ser tomadas por jovens com cabelos com corte ao estilo “moicano” ou espetados, usando calças jeans rasgadas, acasalhos jeans ou de couro com emblemas costurados, botas do exército, correntes, pulseiras de couro ou metal, etc. E bandas como Sex Pistols e Ramones representavam, no plano internacional, essa tribo, na música.
O Brasil recepcionou essa nova ideologia e os punks nacionais puderam dançar e se manifestar ao som de grupos musicais como Plebe Rude, Inocentes, As Mercenárias, Garotos Podres, entre outras.
Lembro-me de uma vez em que assisti a um show no Circo Voador (mas não me recordo a data exata) com a participação das bandas Heróis do Dia, Plebe Rude e Inocentes. Aliás, o evento marcou a última apresentação da banda brasiliense Heróis do Dia.
O movimento punk serviu inclusive de inspiração para artistas como Angeli, que criou um personagem chamado Bob Cuspe.
Além dos punks, havia a tribo dos darks. Vestidos predominantemente com roupas na cor preta, com rostos pálidos e carregados de maquiagem (batom e lápis preto nos olhos) a tribo dos darks emergiu no Brasil sob a influência de bandas estrangeiras como Siouxsie & The Banshees, Bauhaus, The Cure, Sisters of Mercy e outras. Bandas como The Smiths, Everything But Girl, Eccho & The Bunnymen, Lloyd Cole & The Commotion e New Order também embalavam a noite dos darks, em boates próprias, como o Crepúsculo de Cubatão (7), localizado na Rua Barata Ribeiro, no bairro carioca de Copacabana, que um de seus sócios foi inglês Ronald Biggs, famoso por ter cometido o assalto ao trem postal britânico, em 1963 (8).
Entre bebidas exóticas como Kamikaze e Praia de Ramos, pessoas “diferentes” do convencional dançavam no subsolo da boate Crepúsculo de Cubatão. Cada um procurava o seu pedaço na parede (as pessoas dançavam com seus rostos virado para as paredes; "cada um na sua"), a fim de dançar, naquilo que atualmente poderia se compreender como “cada um no seu quadrado” (o piso da pista de dança tinha a aparência de um tabuleiro de xadrez).
Os adeptos do estilo new wave também deixaram sua marca na década de 1980. Costumavam a usar roupas coloridas e sem qualquer combinação. Vestir uma camisa laranja, uma calça verde e usar tênis lilás ou quadriculados, por exemplo, eram aceitáveis para quem curtia sol e música alegre. Na música, o grupo B-52’s dava o tom new wave.
Punks, darks, new waves... Como deixar de lado os metaleiros. Ao som de bandas como Iron Madden, os amantes do metal rock balançavam a cabeça, vestiam calças jeans surradas, jaquetas jeans, usavam tênis ou botas de couro estilo cowboy e deixavam os cabelos longos.
A par de bandas e tribos estilizadas, no Brasil havia grupos que curtiam bandas de música como Legião Urbana.
Aliás, é justamente a esta banda que se pode atribuir um dos hinos de uma geração, com a música Será.
Logo de cara, o refrão “tire suas mãos de mim, eu não pertenço a você, não é me dominando assim que você vai me entender, posso estar sozinho, mas sei aonde vou...” sintetiza o grito de uma geração. Uma geração cansada de “nãos”, ávida por ser dona de seu próprio destino.
Importante aqui ressaltar aqui alguns fatos sobre esta década.
O primeiro deles se refere ao processo de abertura política pela qual o Brasil atravessava. Como dito, houve o retorno de políticos, artistas e intelectuais ao país, anos após o exílio, um movimento crescente pelas eleições diretas, cuja campanha ficou conhecida como Diretas Já!, e a organização de uma constituinte, que culminou na “Constituição Cidadã”, expressão cunhada por Ulisses Guimarães para a Constituição da República Federativa do Brasil até hoje vigente.
No âmbito das artes e da imprensa, Henfil e o pessoal do jornal O Pasquim davam um tom irônico à situação do país, satirizando a ditadura e chamando a atenção para as mazelas por ela deixadas, como a violação aos direitos humanos, as desigualdades sociais, corrupção, etc., enquanto Marta Suplicy, Marília Gabriela, Ala Szerman, Irene Ravache e Clodovil Hernandez, colocavam o sexo feminino em destaque no programa TV Mulher, cuja música de abertura era É Cor de Rosa Choque, de Rita Lee. Neste programa, a sexóloga Marta Suplicy escandalizava a sociedade conservadora ao falar sobre orgasmo feminino e citar a palavra "vagina".
O humor também fazia parte da grade de programação da televisão. Programas como Viva o Gordo (1981-1987) e Chico Anísio Show (1982-1990) faziam graça de tudo, inclusive da política. Pode-se também assistir aos dois últimos anos do programa Planeta dos Homens (1976-1982).
A juventude brasileira estava em voga no cinema, com filmes como Menino do Rio (1981), Bete Balanço (1984), Rock Estrela (1986), entre outros. Enquanto isso, na televisão, programas como Armação Ilimitada (1985) colocavam a imagem da juventude dentro dos lares e divulgando a geração saúde, em alusão às práticas esportivas, ao sol, à alimentação sadia e ao padrão estético-corporal.
Muitas coisas aconteceram na década de 1980, seja em que área for: artes, música, cinema, política, moda, etc.
Quem se dispôs a circular pelas tribos na década de 1980, sem preconceitos, talvez tenha tido a chance de ter vivido aquela década como um camaleão. Qualquer um pode ser um camaleão, e não somente o David Bowie (9).
Então, senhoras e senhores, com o perdão da palavra, década perdida, é o cacete!
Notas:
(1) A expressão Beatnik foi criada, com a adição dos termos da geração Beat e do satélite artificial soviético Sputnik, para designar a geração que se achava fora do centro das tomadas de decisão nas sociedade até a década de 1960. Esta juventude Beatnik seria responsável pelos movimentos de contra-cultura.
(2) A banda The Beatles foi marcada por duas fases, até o seu término em 1970. Da data de sua fundação, 1957, a 1966, a banda ficou famosa por suas músicas influenciadas pelo rock 'n roll. A partir de 1966, The Beatles se dedicaram a canções com conotações espirituais e psicodélicas.
(3) O festival musical Woodstock foi realizado de 15 a madrugada de 18 de agosto de 1969 no sítio localizado na pacata cidade de Bethel, no estado norte-americano de Nova Iorque.
(4) No Rio de Janeiro, destacaram-se as boates Hipopotamus e Papagaio Disco Club (filial da boate de São Paulo). Em São Paulo, o Papagaio Disco Club e o Banana Power eram as casas mais freqüentadas na época.
(5) Os termos da chamada Anistia Ampla, Geral e Irrestrita vêm sendo discutidos, pois a quem alegue que grupos militares e paramilitares violadores dos direitos humanos, que por décadas torturaram, seqüestraram e mataram, dela se beneficiaram. Assim, a Anistia teriam beneficiado não somente os persguidos políticos, mas seus algozes.
(6) A primeira edição do Rock in Rio, no Rio de Janeiro, em 1985, contou com: dia 11 de janeiro de 1985, Queen, Iron Maiden, Whitesnake, Baby Consuelo e Pepeu Gomes, Erasmo Carlos e Ney Matogrosso; no dia 12 de janeiro de 1985, George Benson, James Taylor, Al Jarreau, Gilberto Gil, Elba Ramalho e Ivan Lins; no dia 13 de janeiro de 1985, Rod Stewart, The Go-Go's, Nina Hagen, Blitz, Lulu Santos e Os Paralamas do Sucesso; no dia 14 de janeiro de 1985, James Taylor, George Benson, Alceu Valença e Moraes Moreira; no dia 15 de janeiro de 1985, AC/DC, Scorpions, Barão Vermelho, Eduardo Dusek e Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens; no dia 16 de janeiro de 1985, Rod Stewart, Ozzy Osbourne, Rita Lee, Moraes Moreira e Os Paralamas do Sucesso; no dia 17 de janeiro de 1985, Yes, Al Jarreau, Elba Ramalho e Alceu Valença; no dia 18 de janeiro de 1985, Queen, The Go-Go's, The B-52's, Lulu Santos, Eduardo Dusek e Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens, no dia 19 de janeiro de 1985, AC/DC, Scorpions, Ozzy Osbourne, Whitesnake, Iron Maiden, Baby Consuelo e Pepeu Gomes; no dia 20 de janeiro de 1985, Yes, The B-52's, Nina Hagen, Blitz, Gilberto Gil, Barão Vermelho e Erasmo Carlos.
(7) A boate Crepúsculo de Cubatão (1984-1989) localizava-se na Rua Barata Ribeiro n° 543, Copacabana, no Rio de Janeiro. A boate recebeu este nome como ironia à cidade de Cubatão, considerada na década de 1980 como uma das cidades mais poluídas do mundo, numa região conhecida como Vale da Morte. A boate era freqüentada por adeptos do movimento dark (mas as pessoas apenas queriam ser diferentes), cujas roupas eram marcadas predominantemente pela cor preta, ou diferentes, como algumas pessoas preferem lembrar. Em 1989, a boate passou a se chamar Kitschnet.
(8) Ronald Arthur Biggs tornou-se famoso após assaltar um trem postal na cidade de Buckinghamshire, em 1963, na companhia de 15 pessoas. Responsável pelo roubo de 2,6 milhões de libras, no ano seguinte, foi detido juntamente com os comparsas. Mas fugiu da penitenciária, em 195, e chegou a Paris, tendo adquirido uma falsa identidade. Nos anos de 1970, chegou ao Brasil, onde estabeleceu domicílio. Decidiu retornar a Inglaterra em 2001 e, ao desembarcar em solo britânico, foi imediatamente preso. Foi solto em 2009, pos ordem do ministro da justiça Jack Straw, devido ao seu debilitado estado de saúde.
(9) David Bowie tinha o apelido de camaleão porque mudava de estilo musical e estético com frequência. Do visual psicodélico da década de 1970, inclusive quando cantava na banda Ziggy Stardust, David Bowie se tornou um cantor de música pop e que vestia trajes elegantes como terno e gravata.

sábado, 23 de maio de 2009

CHAPEUZINHO VERMELHO: análise de um conto infantil no atual contexto político e jurídico brasileiro.

Era uma vez,
Numa aldeia pequenina, uma menininha linda como uma flor; sua mãe gostava muito dela, e sua vovozinha ainda mais.
Esta boa senhora lhe fizera um chapeuzinho vermelho que assentava tão bem que em toda parte ela era conhecida como a Menina do Chapeuzinho Vermelho.
Um dia, sua mãe fez uns biscoitinhos muito gostosos e lhe disse:
– Vá saber notícias da vovozinha porque me contaram que ela está doente; leve estes biscoitinhos para ela e este potinho de manteiga. Chapeuzinho vermelho saiu logo para ir visitar sua vovozinha, que morava em outra aldeia.
Passando por um bosque, encontrou o compadre lobo, que ficou louco de vontade de comê-la; não teve coragem, porém, apenas por causa de uns lenhadores que estavam na floresta.
O lobo perguntou então a Chapeuzinho Vermelho para onde ela ia. A pobre menina, que não sabia que conversar com o lobo é coisa muito perigosa, respondeu-lhe:
– Vou visitar minha vovozinha e levar uns biscoitinhos e um potinho de manteiga que minha mãe fez para ela.
– Ela mora muito longe daqui? Perguntou o lobo.
– Muito longe, respondeu-lhe Chapeuzinho Vermelho; depois daquele moinho que o senhor está vendo lá longe, é a primeira casa.
Muito bem! Disse o lobo, eu também quero ir visitar sua vovozinha; eu vou por este caminho e você vai por aquele; vamos ver quem chega primeiro! O lobo começou a correr o mais que podia pelo caminho mais curto; a menininha foi pelo mais comprido, divertindo-se em colher frutinhas, em correr atrás das borboletas e em fazer ramos com as florezinhas que encontrava.
O lobo não demorou a chegar à casa da avozinha; bateu, bateu na porta, toc, toc, toc...
– Quem está aí?
– “É a sua netinha, Chapeuzinho Vermelho”, disse o lobo, imitando a voz da menina, “que vem lhe trazer uns biscoitinhos e um pote de manteiga que mamãe mandou”.
A boa vovozinha, que estava na cama por achar-se doente, gritou-lhe:
– A porta está aberta, entre.
O lobo abriu a porta e entrou na casinha da vovó.
Então ele atirou-se em cima da vovozinha e devorou-a num instante, porque fazia três dias que não comia.
Depois fechou a porta e foi-se deitar na cama da vovozinha esperando Chapeuzinho Vermelho, que pouco depois também batia na porta, toc toc, toc...
– Quem está aí?
Chapeuzinho Vermelho, ouvindo a voz grossa do lobo, teve um pouco de medo, mas depois, pensando que talvez sua vovozinha estivesse resfriada, respondeu:
– É a sua netinha, Chapeuzinho Vermelho, que lhe vem trazer uns biscoitinhos e um potinho de manteiga que a mamãe lhe mandou.
O lobo, abrandando um pouco a voz, lhe diz:
– A porta está aberta, entre!
Chapeuzinho Vermelho girou a maçaneta e a porta da casinha da vovó abriu-se. Ela foi direto para o quarto da vovozinha, pois a mesma, ainda adoentada, estava na sua cama.
O lobo já tinha colocado uma touquinha da vovozinha e seus óculos de leitura, os quais estavam na cômoda ao lado da cama, tentando assim enganar e confundir a menininha.
Quando o lobo a viu entrar, tentou fazer uma voz mais fraquinha, imitando a vovozinha:
– Põe os biscoitinhos e o potinho de manteiga em cima da mesa e sente-se ao meu lado aqui na cama!
Chapeuzinho Vermelho tirou o chapeuzinho e foi para perto da cama, onde ficou muito espantada por ver a sua avozinha tão diferente.
Ela lhe disse:
– Como você tem braços compridos, minha vovozinha!
– É pra te abraçar com força, minha netinha!
– Como você tem as pernas compridas, vovozinha!
– É pra correr depressa, minha netinha!
– Como você tem as orelhas grandes, minha vovozinha!
– É pra te ouvir melhor, minha netinha!
– Como você tem olhos grandes, minha vovozinha!
– É pra te enxergar melhor, minha netinha!
– Como você tem os dentes pontudos, vovozinha!
– É pra te comer! E, dizendo isto, jogou-se sobre Chapeuzinho Vermelho e devorou-a.
O lobo, farto de tanta comida, tornou a deitar-se na cama; dormiu e começou a roncar, fazendo um barulhão!
Ora, aconteceu que por ali passou um caçador. E, ao passar ao lado da casa, ouviu o ronco do lobo pela janela do quarto da vovozinha.
– Meu Deus, como a vovozinha está roncando alto! Vou entrar para ver se ela está doente.
O caçador entrou no quarto, e quando chegou perto da cama viu que era o lobo que roncava todo satisfeito.
– Ah, ah, até que enfim te peguei, seu patife! Já não era sem tempo.
Quando ia pegar na espingarda para matá-lo com um tiro, lembrou-se que o lobo com certeza comera a vovozinha, mas talvez ainda houvesse jeito de salvá-la.
Então, em vez de atirar, pegou uma tesoura muito grande e abriu a enorme barriga do lobo, que não parava de roncar. Mal tinha dado duas tesouradas e viu aparecer Chapeuzinho Vermelho, mais duas tesouradas, e a menina pulava no chão!
– Como eu tive medo! Estava tão escuro dentro da barriga do lobo! Depois, a vovozinha saiu também, mal respirando, mas ainda viva.
Então, Chapeuzinho Vermelho foi depressa buscar uma pedras e com elas os dois encheram a barriga do lobo.
Quando ele acordou e viu toda aquela gente, quis fugir da cama, mas as pedras eram tão pesadas que ele caiu no chão com toda a força e morreu no mesmo instante.
Então os nossos três amigos ficaram muito aliviados; o caçador tirou a pele do lobo e voltou pra casa; a vovozinha comeu os biscoitinhos e o potinho de manteiga que Chapeuzinho Vermelho lhe trouxera e achou-os deliciosos.
E Chapeuzinho Vermelho disse:
– Nunca mais vou desobedecer à mamãe correndo no bosque e conversando com o lobo mau!

Este conto infantil vem sendo transmitido de geração em geração. Trata-se de um conto sobre uma menina, Chapeuzinho Vermelho, que deu conversa ao lobo mau e quase acabou mal.
Pela história, graças à ajuda de um caçador, Chapeuzinho Vermelho e sua avó foram salvas.
De fato, é um conto infantil, mas que no atual contexto, tornou-se política e juridicamente incorreto, de acordo com as anotações a seguir expostas:
Em primeiro lugar, vê-se que o conto em tela induz ao pensamento de que o lobo é mau só porque manifestou seus próprios instintos. Faz referência à uma menininha boazinha e a um lobo mau, preverso, voraz.
Ademais, pela leitura deste conto, pressupõe-se que Chapeuzinho Vermelho é uma criança, estando, por isso, sob o amparo da Lei n° 8.069, de 13 de julho de 1990, que dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente.
Assim, ao determinar que Chapeuzinho Vermelho partisse sozinha pela floresta, rumo à casa de sua avó, a mãe daquela violou o Estatuto da Criança e do Adolescente. A mãe de Chapeuzinho Vermelho foi negligente para com esta, podendo ser responsabilizada, segndo o Estatuto da Criança e do Adolescente.
Ora, ademais, se a mãe de Chapeuzinho Vermelho tinha notícias de que a avó desta estava doente, porque então não foi vê-la pessoalmente? Afinal, era sua própria mãe! Por que mandou a neta?
Demonstra-se claramente a ausência de assistência da mãe de Chapeuzinho Vermelho com uma idosa. Tal conduta constitui violação à Lei n° 10.741, de 1° de outubro de 2003, denominada Estatuto do Idoso. Trata-se, pois, de um típico caso de negligência com uma pessoa idosa.
Vê-se ainda que o lobo é um pedófilo! Há todo momento ele assedia Chapeuzinho Vermelho.
O lobo cometeu ainda crimes como: invasão de domicílio; tentativa de homicídio (pois há que se lembrar que Chapeuzinho Vermelho e sua vovozinha foram resgatadas da barriga daquele, ainda com vida); e falsidade ideológica, eis que o lobo se fez passar por Chapeuzinho Vermelho e por sua avó.
Mas o lobo seria o único vilão deste conto?
Claro que não! Afinal, o caçador, Chapeuzinho Vermelho e sua avó, em conluio de vontades, praticaram maus-tratos em espécie animal (abriram a barriga do lobo com uma tesoura, enquanto este ainda estava vivo, e lá inseriram pedras). Portanto, o caçador e a avó de Chapeuzinho Vermelho cometeram o crime descrito no art. 32 da Lei n° 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, conhecida como Lei de Crimes Ambientais. Tal fato ainda foi agravado pela morte do lobo e pela apropriação da pele do lobo pelo caçador.
E o caçador? Tinha licença para exercer tal atividade?
Hum..., no caso do caçador, por si só, já demonstra que este cometeu crime ambiental, pois a Lei n° 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, proíbe tal atividade.
Mas, nem Chapeuzinho Vermelho escapa, porque, na condição de menor, cometeu aquilo que se chama ato infracional (ato análogo a crime de maus-tratos em animal), podendo sofrer as medidas previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente.
Ah, pensaram que havíamos esquecido os lenhadores? Evidente que não, eis que também cometeram crime contra o meio ambiente, já que, naturalmente, também não possuíam licença para a derrubada de árvores. Estavam na floresta fazendo o quê?
Viram? Tá todo mundo “enquadrado”!
E ainda reclamam? Ah, se isso tivesse acontecido no período da Ditadura militar, Chapeuzinho Vermelho (viram a cor do chapeuzinho?!) estaria ferrada! Poderia ser taxada de “subversiva”, comunista, e acabaria no “pau-de-arara”, na “cadeira do dragão”, na “geladeira”, no choque elétrico, etc.
Entenderam o conto de Chapeuzinho Vermelho no atual Estado Democrático de Direito? E viram como uma assessoria jurídica é importante?
Pois é, podem rir.
Até mais, com outro conto.