quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O VESTIDO, A MÍDIA E A BRUXA NA FOGUEIRA: DA LUXÚRIA À CATARSE.


No dia 22 de outubro deste ano, Geyse Arruda, de 20 anos, foi hostilizada pelos colegas, funcionários e professores do curso de turismo da Universidade Bandeirante de São Bernardo (UNIBAN) por usar um vestido curto cor de rosa-choque.
O incidente teria começado dentro da sala de aula e se propagado pelos corredores da instituição, culminando com xingamentos e palavras ofensivas em face da jovem estudante, levando a polícia militar paulista a intervir, a fim de garantir a segurança física daquela.
De acordo com depoimentos da própria estudante e de testemunhas que estavam nas dependências da instituição de ensino superior, tanto os funcionários como os professores teriam sido irônicos, quedando-se inertes em proteger a aluna, enquanto ouviam-se os brados de “puta, puta, puta”.
Tal fato pode trazer à tona algumas questões.
A primeira delas se refere à maneira como alunos, funcionários e professores da UNIBAN se comportaram, ainda que a aluna de turismo tivesse provocado o incidente. Em primeira instância, o incidente faz lembrar o antigo argumento de defesa do estuprador em face da vítima culpada ou provocadora. Há citações de perguntas como “como estava vestida a vítima” para justificar atos como o estupro e reforçar a tese de que o criminoso teria agido por um impulso irresistível provocado pela vítima. Esta alegação pode inclusive inverter os papéis, colocando a vítima como culpara e vice-versa.
A tese defensiva acima descrita parece ter sido superada na defesa de criminosos em casos como o estupro e o atentado violento ao pudor, por exemplo, ainda que encontre alguns adeptos.
Outra questão diz respeito às reais motivações para as ofensas a estudante Geyse Arruda. Há quem afirme usar top, minissaia ou vestidos tão curto ou mais do que a estudante ofendida.
Do ponto de vista da subjetividade, fica difícil determinar as reais motivações para o incidente, mas as ofensas proferidas pelos colegas de universidade de Geyse Arruda parecem dar conta de uma dinâmica social que remete à catarse.
As ofensas verbais dos alunos podem ser compreendidas como uma violência utilitária, em que, a partir do sacrifício de uma pessoa, une-se o grupo, naquilo que foi descrito por René Girard em A violência e o sagrado. Tratar-se-ia, pois, segundo o referido autor, de uma violência intestina, o que encontra argumento convergente em Georges Balandier, em A desordem: elogio ao movimento.
A agressão de torcedores de um time rival, o extermínio de um grupo étnico considerado minoritário ou mesmo a malhação do boneco de Judas durante a celebração de Sábado de Aleluia que antecede à Páscoa católica serviria pra exorcizar os demônios e unir os membros de um determinado grupo. E o mesmo parece ter ocorrido com a estudante Geyse Arruda e os demais alunos da UNIBAN.
Poder-se-ia até recorrer à canção de Chico Buarque Geni e o zepelim como fundo musical para o incidente: “Joga pedra na Geni, joga pedra na Geni, ela é feita pra apanhar, ela é feita boa de cuspir, ela dá pra qualquer um, maldita Geni”.
Entretanto, ainda que se tratasse de uma “Geni”, a atitude dos alunos, funcionários e professores da UNIBAN pareceu não condizer com a democracia que se acredita viver. Ainda que Geyse Arruda fosse uma “Geni” (considerando-se o imaginário popular de que quem usa vestido curto “dá pra qualquer um”), nada parece justificar as ofensas por ela sofridas.
Numa democracia não se pode permitir o aviltamento da dignidade da pessoa humana, o que deveria ter sido reprimido pela UNIBAN, mas não foi. Ao contrário, funcionários e professores parecem ter assistido todo o incidente de modo passivo, o que ensejou a intervenção policial para garantir a integridade física da jovem estudante. E ainda que vestimenta de Geyse Arruda tivesse sido inconveniente, nada justifica as agressões sofridas por ela.
O incidente envolvendo a estudante Geyse Arruda e a UNIBAN atingiu proporções ainda maiores com a expulsão desta pela mencionada instituição de ensino e a cobertura da mídia nacional. Noticiários televisivos, jornais e até a mídia virtual, como o canal youtube, trataram de colocar o caso em destaque.
Mas, chega a ser paradoxal o comportamento de reprovação social pela utilização de um vestido curto por uma estudante de 20 anos (com um belo corpo, diga-se de passagem) frente a fenômenos midiáticos como o Big Brother Brasil (um dos campões de audiência) e de personalidades como a atriz, modelo e artista burlesca norte-americana Dita Van Teese, que por um strip-tease num copo gigante de Martini pode até cobrar aproximadamente 100 mil reais.
Mulheres seminuas aparecem em programas de televisão, como no citado Big Brother Brasil ou mesmo em programas humorísticos, transmitidos inclusive durante o chamado horário-nobre. Isso sem deixar de mencionar os trajes femininos contemporâneos de praia.
Enfim, pode-se pagar uma vultuosa soma para ver uma mulher se despir, aceita-se mulheres seminuas na televisão e convive-se com mulheres de biquínis pequenos nas praias, mas não se tolera uma mulher com um vestido curto numa universidade, durante uma aula de um curso noturno. E por que?
Será que Geyse Arruda representou algum perigo para o controle da libido de seus colegas de universidade? Será que Geyse Arruda, com belo rosto e corpo, representou alguma ameaça de ofuscar a beleza de suas colegas de universidade?
Seja como for, parece que Geyse Arruda interpretou (ainda que de maneira involuntária) o papel da herege que merece ser lançada à fogueira para aplacar o furor da sociedade, numa verdadeira cena de catarse. De mulher desejada, parece ter virado bruxa.
O caso envolvendo a estudante Geyse Arruda pode ter aflorado o imaginário coletivo da mulher culpada pelos males do mundo. O mito da mulher capaz de virar a cabeça dos homens e que por isso há que se reprimida, como as personalidades bíblicas Lilith e Eva, parece persistir, mesmo em comunidades ditas esclarecidas, como a comunidade acadêmica.
A direção da UNIBAN, ao expulsar a aluna Geyse Arruda (ainda que a instituição de ensino superior tenha voltado atrás em sua decisão) agiu como a Inquisição. Os atos da instituição de ensino falam por si próprios. E alunos, funcionários e professores se comportaram como o povo ávido pelo sofrimento da herege. Afinal, o sacrifício da vítima sacia a sede das massas e as absolve de seus pecados.
Geyse Arruda saiu das dependências da universidade coberta com um jaleco branco, como um sambenito (traje usado para identificar os acusados de heresia), e escoltada por autoridades policiais como quem se dirigia para a fogueira, após ter sido julgada pelo Inquisidor.
Ao que indica, em algumas universidades também há fogueiras prontas para serem acesas. E quem são as bruxas?

4 comentários:

Zilton Hilel disse...

Muito bem colocado Mr. Segal, Pensando que uma universidade é ou seria um centro de formação do saber e do pensar, e tudo que acontece ali dentro eu tenho a obrigação de acolher e ajudar os estudantes a compreender o fato, justamente por que estou formando e educando pessoas. isso não aconteceu, e mostrar o quanto a unibam está longe de vir a ser um centro de pensadores.

Outra coisa muito bem colocada por Mr. Segal a sociedade moderna pratica e realiza um pensamento mediano e romântico burguês por isso carece de compreensão de si mesmo, por mais informação que tenha e informação nunca foi Sabedoria.

Como nós da sociedade moderna não temos tradição de nada e ficamos muito a quem da natureza do homem perdemos nossa referença com a natureza humana os Ritos de passagem, as Celebrações,
tudo que é essencial para uma sociedade existir com sabedoria e saúde física, intelectual e emocional, quando não temos isso como parte da nossa cultural surgem outras manifestações no lugar para cobrir a falta e a lacuna que demanda a Alma Humana

Zilton Hilel

Zilton Hilel disse...

Muito bem colocado Mr. Segal, Pensando que uma universidade é ou seria um centro de formação do saber e do pensar, e tudo que acontece ali dentro eu tenho a obrigação de acolher e ajudar os estudantes a compreender o fato, justamente por que estou formando e educando pessoas. isso não aconteceu, e mostrar o quanto a unibam está longe de vir a ser um centro de pensadores.

Outra coisa muito bem colocada por Mr. Segal a sociedade moderna pratica e realiza um pensamento mediano e romântico burguês por isso carece de compreensão de si mesmo, por mais informação que tenha e informação nunca foi Sabedoria.

Como nós da sociedade moderna não temos tradição de nada e ficamos muito a quem da natureza do homem perdemos nossa referença com a natureza humana os Ritos de passagem, as Celebrações,
tudo que é essencial para uma sociedade existir com sabedoria e saúde física, intelectual e emocional, quando não temos isso como parte da nossa cultural surgem outras manifestações no lugar para cobrir a falta e a lacuna que demanda a Alma Humana

Zilton Hilel

Beatriz disse...

Concordo plenamente, atitude inaceitável dos alunos e funcionários da faculdade. Não usaria um vestido daquele, não faz meu estilo, mas isso não faz com que me sinta superior ou capaz de julgar. Ainda mais crescendo e vivendo num país como o nosso. Onde somos obrigados a ver mulheres "despidas" a todo momento em todos os lugares. País do "Women Hortfruit", mulher fruta pra todos os gostos, de todos os "sabores. País conhecido pelo Carnaval, onde os turistas podem ver as brasileiras como vieram ao mundo. País onde muitos estrangeiros acham que todas andamos de bikini fio dental por aí! Agora pergunto, que moral este país tem para julgar o tipo de roupa que uma ou outra tem que usar? Se esse tipo de coisa acontece num país musulmano, também não aceitaria, mas entenderia, pois lá sim teria ocorrido uma quebra no costume, e não só costume, na Lei, mas aqui?!?! Não aguento esse falso moralismo! Será que vivo nesse país mesmo? Com esse tipo de sociedade?

Professora: Bárbara C. Dias disse...

Muito bom seu texto. Deixo aqui a minha indignação com o ocorrido com a estudante. É de fato uma vergonha que ainda existam fogueiras tão acesas e vivas! Um verdadeiro retrocesso.
um abraço,
Bárbara