quinta-feira, 4 de setembro de 2008

JURO QUE TENTEI

Juro que tentei. Mesmo afirmando anteriormente que não assistiria os Jogos Olímpicos em Beijing (Pequim). E, para não dizerem que sou "do contra", tentei. Numa noite, enquanto jantava num restaurante perto de minha casa. Fiz um esforço para assistir a uma partida de handebol masculino entre o Brasil e Croácia.
Para quem conhece um pouco do panorama esportivo, sabe que as grandes potências do handebol encontram-se na Europa, sobretudo na Escandinávia (Suécia, Islândia, Noruega e Dinamarca) e no leste europeu, como na Hungria, Rússia, Romênia, Polônia e a própria Croácia, adversária do Brasil naquela partida, além de alguns outros países com a França, a Alemanha e a Espanha.
Tudo bem que o Brasil evoluiu muito na modalidade esportiva em tela, mas, daí o narrador do canal onde a partida foi transmitida indicar que a seleção nacional tinha chances frente à Croácia... bom, “aí são outros quinhentos”, como se diz por aí. A Croácia foi campeã em duas ocasiões olímpicas: 1996 (Atlanta) e 2004 (Atenas). E terminaria os Jogos Olímpicos de 2008 (Beijing) em quarto lugar.
Verdade é que o Brasil não tinha a mínima chance ou, para não dizer que sou pessimista ou “negativo”, as mínimas chances possíveis. Afinal, como dito, a Croácia é uma das potências do esporte no mundo.
Mesmo assim, o narrador da partida chegou a dizer antes da partida que o Brasil estava bem, apesar da derrota na partida anterior para os franceses, insinuando o seguinte: "que venha a Croácia"!!!
E partida correu normalmente, com a Croácia sempre à frente no marcador, aproveitando os erros do Brasil e marcando seus gols, como já era previsto, pelo menos por mim ou, provavelmente, por mais alguém.
Quando me dei conta, vi que as pessoas ao meu redor estavam “vidradas” na TV, assistindo ao jogo de handebol e cheias de esperanças na vitória brasileira. Para quem acabasse de chegar ao estabelecimento ou não soubesse nada de história esportiva, como a do handebol, por exemplo, a esperança na vitória do Brasil seria justificável, ainda mais com a colaboração do narrador da partida.
A referida partida terminou com o placar de 33 a 14 para os croatas. Vergonha para o Brasil? Não, mérito dos croatas. Mas fato é que o Brasil perdeu todas as partidas da primeira fase, com exceção da China, que venceu por 29 a 22. O país sequer passou para a fase seguinte.
Depois, tudo voltou ao normal, com as pessoas bebendo e comendo tranqüilamente. Digo, elas comeram e beberam tranqüilamente, como nada tivesse acontecido, pois comigo foi diferente.
Fiquei pensando no que acabara de ver. Uma partida de handebol transmitida para o país, em que a seleção nacional tinha, senão nenhuma, chances muito remotas de vencer a Croácia, um narrador que todo momento dava a entender que o Brasil poderia vencer a partida, mesmo que tenha permanecido o tempo todo atrás no marcador de pontos, e uma platéia cheio de esperança por aquilo que, pelo menos eu, sabia que não aconteceria.
Lembrei-me de situações parecidas, em que, mesmo sabendo o resultado previamente, pude constatar que o narrador, comentarista, repórter ou sei lá quem, tentava a todo custo “vender” uma verdade. Ou seja, tentava fazer com que as pessoas, ao assistirem as transmissões, realmente acreditassem naquilo que o profissional de comunicação falava.
Cheguei à seguinte conclusão, a qual não sei se é somente a minha: os fatos transmitidos pelos meios de comunicação, principalmente de massa, são “produtos a serem vendidos”, não importando se estes são viáveis, verdadeiros ou não. O Importante é fazer com que o espectador acredite no que vê e ouve, como quem assina um contrato de adesão (típico dos serviços e produtos de massa), sem questionar as cláusulas. Aceita a informação (como um serviço ou produto), e pronto. Os papéis paracem estar bem definidos: "eles vendem e nós compramos".
Basta um exercício de atenção ao que é dito e mostrado para se ter a noção de como as informações são manipuladas, geralmente para o avesso da verdade. Afinal, o negócio é "vender informação".
Ao assistir a partida entre Brasil e Croácia, válida pelo torneio masculino de handebol, dos Jogos Olímpicos de 2008, em Beijing (Pequim), juro que tentei. Tentei acreditar que o Brasil tinha chances de vencer, tentei acreditar que o narrador transmitia a realidade dos fatos, mas não consegui.

Um comentário:

Leila disse...

Muito Legal esse texto!!!
Eu ainda incluo a facilidade de se ter contato com os antigos amigos, pois eu achei gente q estudou comigo na 3ª série e ainda com os amigos que moram longe.

Beijos