quinta-feira, 3 de março de 2011

PROTEÇÃO DA VIDA E LEGISLAÇÃO PENAL: uma relevante questão de fundo.


1960
Neyde Maria Lopes ficou conhecida como a “A Fera da Penha”, devido a um caso que chocou a sociedade na década de 1960. Ela sequestrou, assassinou e queimou o corpo de Tânia Maria Coelho Araújo, de 4 anos de idade, nos fundos de um matadouro na Penha, na cidade do Rio de Janeiro. Neyde Maria Lopes foi condenada a 33 anos de prisão, tendo cumprido 15 anos e saido da institutição prisional em livramento condicional.
Segundo as notícias da época e as investigações policiais, Neyde Maria Lopes (“A Fera da Penha”), então com 22 anos de idade, mantinha um caso com Antônio Couto Araújo, desde que se conheceram na Central do Brasil, no ano de 1959.
Ao saber que Antônio Couto Araújo era casado, Neyde Maria Lopes exigiu que ele deixasse sua mulher, Nilza Coelho Araújo, e suas duas filhas. Mas, diante a negativa de Antônio, e cansada de ser “a outra”, Neyde resolveu se vingar. Aproximou-se da família de Antônio, ganhando a confiança da mulher deste, e escolheu Tânia Maria Coelho Araújo, a “Taninha”, como a vítima para seu projeto de vigança.
Em 30 de junho de 1960, Neyde Maria Lopes, fazendo-se passar por Nilza Coelho Araújo (mulher de Antônio Couto Araújo), telefonou para a escola onde Taninha estudava, avisando que uma vizinha iria apanhar a menina.
Ao chegar à escola onde Taninha estava matriculada, sua mãe, Nilza ficou sabendo do ocorrido, vindo a chamar a polícia. Enquanto isso, Neyde ficou andando com Taninha por várias horas pelas ruas da cidade, sem rumo certo. Parou na casa de uma amiga e em uma farmácia, onde comprou álcool.
Neyde Maria Lopes executou Tânia Maria Coelho Araújo, uma menina de 4 anos, com um tiro na cabeça e ateou fogo em seu corpo.
Mesmo após vários iterrogatórios e a confrontação com os pais de Tânia Maria Coelho Araújo, a Taninha, Neyde Maria Lopes sempre negou a autoria do crime bárbaro, até sua confissão definitiva ao radialista Saulo Gomes, dando-lhe detalhes sórdidos do ocorrido.
Por sus frieza e premeditação, Neyde Maria Lopes recebeu o apelido de “A Fera da Penha”.
De acordo com algumas fontes, Neyde vive na zona norte da cidade do Rio de Janeiro, pouco conversa com os vizinho e fica reclusa em sua casa.
2011
Luciene Reis Santana, de 30 anos, sequestrou e matou a menina Lavínia Azeredo de Oliveira, de 6 anos, em um quarto de hotel no centro de Duque de Caxias, no estado do Rio de Janeiro.
Segundo as investigações policiais, a morte de Lavínia foi motivada pela decisão de Rony dos Santos Oliveira (pai de Lavínia e casado) em romper o relacionamento extraconjugal que matinha com aquela, além da recusa do pagamento da importância de 2 mil reais.
As investigações apontam que Luciene Reis Santana retirou Lavínia Azeredo de Oliveira da residência onde vivia com seus pais, vagou coma menina pela cidade, apanhou um ônibus e a levou ao hotel no centro de Duque de Caxias, onde a matou por asfixia, medante o usos de um cadarço de tênis.
Funcionários do hotel contaram à polícia que encontratam Lavínia com a cabeça enrolada em uma toalha e que, a retirarem a toalha, seu rosto estaria desfigurado e ensanguentado.
Após negar o crime, Luciene Reis Santana finalmente confessou sua autoria.
A previsão dos especialistas é que Luciene Reis Santana seja condenada a uma pena de aproximadamente 30 anos de reclusão.
Assim como Neyde Maria Lopes (“A Fera da Penha”), Luciene Reis Santana matou uma menina em tenra idade. Tânia Maria Coelho Araújo tinha 4 anos quando foi assassinada por Neyde. Lavínia Azeredo de Oliveira tinha 6 anos.
Neyde foi condenada a uma pena de reclusão de 33 anos, e cumpriu 15 anos, tendo saído da prisão em livramento condicional.
Provavelmente, pelas provas colhidas pela polícia, Luciente também será condenada à pena de reclusão, sendo também beneficiada pela progressão do regime penal.
A Luciente está sendo imputada a autoria do crime de homicído (art 121) qualificado (art. 121, 2º), por ter cometido um crime por motivo futil (inciso II), pelo emprego de asfixia (inciso III) e pela impossibilidade da vítima, no caso Lavínia Azeredo de Oliveira, de 4 anos, em se defender, cuja previsão da pena é de reclusão de 12 a 30 anos.
Uma relevante questão de fundo
Muito se tem debatido no Brasil sobre os crimes e acerca das penas correlatas. Se por um lado há o clamor para o aumento de penas e a restrição dos benefícios dos condenados, por outro exietm aqueles que defendem o “esvaziamento dos presídios”, a “intervsão mínima do Estado no âmbito penal” ou a “individualização da pena”, como, por exemplo, optaram os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) com relação aos benefícios aos condenados memos por crimes tidos como hediondos (homicído praticado por grupo de extermínio, homicídio qualificado, latrocínio, extorsão qualificada pela morte da vítima, extorsão mediante sequestro, estupro, estupro de vulnerável e epidemia com resultad morte).
No país ainda vigora o Código Penal instituído pelo Decreto-Lei nº 2.848, de 07/12/1940, e o Código de Processo Penal instituído pelo Decreto-Lei nº 3.689, de 03/10/1941, ainda que os mencionados diplomas legais tenham recebido alterações posteriores.
Dizem algumas pessoas que não se deve fazer alterações legais considerando o clamor da população diante de casos de crimes.
De fato, há exemplo da inclusão do homicídio qualificado na Lei nº 8.072 de 25/07/1990 como crime hediondo, cuja proposta foi encabeçada pela autora de novelas Glórias Perez, após a assasinato de sua filha, a atriz Daniela Perez, com 18 estocadas (não se sabe se de tesoura, faca ou punhal, que atingiram os pulmões, o coração e o pescoço da atriz) dadas pelo então ator Guilherme de Pádua e Paula Thomaz.
Mas, voltando aos casos de Tânia Maria Coelho Araújo e Lavínia Azeredo de Oliveira, pode-se ver claramente que não houve, como também não haverá o cumprimento integral da pena imposta pelo Tribunal do Jurí (juízo competente para julgar crimes contra a vida, tentados ou consumados).
No caso dos assassinos da atriz Daniela Perez, estes também se valeram dos benefícios estabelecidos pela lei processual penal brasileira.
Isabella Nardoni é um outro exemplo de homicídio cometido contra uma criança. Isabella, então com 5 anos de idade, foi arremessada pela janela de onde morava, por seu próprio pai Alexandre Nardoni e sua madrasta Anna Carolina Jatobá, de acordo com as investigações da polícia e a denúncia do Ministério Público de São Paulo.
Alexandre Nardoni foi condenado pelo Tribunal do Júri do Estado de São Paulo à pena de 31 anos, 1 mês e 10 dias de reclusão, enquanto Anna Carolina Jatobá recebeu a pena de 26 anos e 8 meses.
Mais um caso em que, naturalemente, pelo que dispõe a legislação nacional e de acordo com o entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF), os autores de um crime considerado hediondo deixarão os presídios antes do cumprimento integral da pena que foi-lhes imposta.
Nestes casos, ficam então alguns questionamentos:
Se não se deve modifcar a legislação penal e processual penal considerando o clamor da opinião pública por práticas delituosas, por que então Luciene Reis Santana deverá gozar dos mesmos benefícios que Neyde Maria Lopes, cujo crime bárbaro, ou hediondo, foi praticado há mais de 50 anos?
Assim, não estaria também a lei, pois, contribuindo para a prática de crimes hediondos como aqueles cometidos por Neyde Maria Lopes e Luciene Reis Santana, além dos exemplos de Daniela Perez e Isabella Nardoni, aqui trazidos, entre tantos outros?
Não estaria o sistema jurídico-legal brasileiro contrubuindo para a banalização da vida nesta país?
Será a civilização juidaico-cristã, como no caso, a brasileira, muito compassiva para com os algozes e tão indiferente ao valor da vida?
Quantas pessoas mais e, especialmente, crianças hão de morrer para que o legislador e as pessoas togadas (vide ministros do STF) entendam que a lei deve atender à proteção da vida e não aos benefícios daqueles que a banalizam.
Então, o que valem a vida, senhores deputados e ministros do STF, o caso mal correspondido, 2 mil reais, uma moto etc.?
Em breve, um debate sobre a prisão perpétua e a pena de morte...

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Express@ndo

Neste mês, estréia este espaço dedicado à expressão de pessoas que atuam em questões de grande relevância social e que, na crença por um mundo transformado, compartilham suas ideias, suas iniciativas e seus trabalhos. E a primeira pessoa entrevistada é Fernanda Vieira, psicólogca e coordenadora da Casa Lar Mangueira, uma instituição localizada na cidade do Rio de Janeiro, responsável pelo acolhimento material e afetivo de jovens do sexo masculino com deficiência física, mental, psíquica e/ou sensorial.

Express@ando, com Fernanda Vieira.




Fernanda Vieira é formada em Psicologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e especialista em Saúde Mental e Desenvolvimento Infanto-Juvenil pela Santa Casa de Misericórdia do RJ. Há cerca de 7 anos coordena a equipe que trabalha na Cara Lar da Mangueira, instituição desenvolvida pelo GRES Estação Primeira de Mangueira, que é responsável pelo atendimento de aproximadamente vinte jovens, do sexo masculino, portadores de deficiência física, mental, psíquica e/ou sensorial. Fernanda conduz a batuta de uma equipe com 20 funcionários. Casada e mãe de Maria Clara, Fernanda se dedica da maneira quase integral ao atendimento daqueles jovens, fazendo um malabarismo entre as suas atribuições, o atendimento clínico em seu consultório e sua vida doméstica. Seu grau de comprometimento se dá de forma tão intensa que carrega, às vezes, sua filha para o trabalho e, frequentemente, leva tarefas pra casa. Numa visita à Casa Lar Mangueira, pode-se observar a dedicação de Fernanda e dos funcionários, além de perceber que a instituição vai contra o estereótipo de “depósito de gente”. Mas, mesmo com muita dedicação, Fernanda garante que há muito a se fazer.
Robert Segal: Naturalmente, o que as pessoas querem saber, é como uma jovem psicóloga foi parar na Casa Lar Mangueira. O que te levou a esta instituição e a trabalhar com este público específico, ou seja, jovens com deficiência física, mental, psíquica e/ou sensorial?


Fernanda Vieira: Comecei minha jornada no Programa Social da Mangueira ainda como acadêmica da UERJ, através de um estágio no Posto de Saúde Mangueira, localizado dentro da Vila Olímpica da Mangueira. Por dois anos acompanhei os grupos terapêuticos com idosos, hipertensos e mulheres no climatério (menopausa). O envolvimento com o projeto social foi tão grande que quis dar continuidade às atividades com idosos e, já como profissional formada, fiquei como voluntária por cerca de 6 meses. Em meados de 2000, fui contratada pelo Projeto Olímpico como Psicóloga para dar suporte ao “Projeto Estação Primeira da Melhor Idade” e “Projeto para Pessoas com Necessidades Especiais”. Uma vez nesse universo de pessoas, famílias e histórias muito especiais, tornou-se impossível me desvencilhar. Em Maio de 2003, iniciamos o desafio de assumir a Coordenação da Casa Lar Mangueira, uma instituição criada para acolher crianças e adolescentes com deficiência, transferidos de uma instituição que estava passando por desajustes administrativos e sob intervenção da Vara da Infância, da Juventude e do Idoso do Estado do Rio de Janeiro. Na verdade, acho que não fomos nós que recebemos os meninos, e sim eles que nos receberam de braços e corações abertos.
Robert Segal: Já havia trabalhado com o público jovem antes e, particularmente com este público?


Fernanda Vieira: Minha primeira experiência profissional foi como estagiária em uma Clínica Dia, desenvolvendo atividades terapêuticas com pacientes com transtornos psiquiátricos. Depois de um ano e meio fui circular por outras áreas da psicologia, até que me deparei novamente com a área da saúde mental. No entanto, o trabalho em um abrigo é diferente de qualquer outra instituição, pois as pessoas moram lá. Não dá para simplesmente fechar a porta e dizer que “retomamos esta questão na semana que vem”. Tudo é questão para agora. A terapia, a escola, a comida, o remédio, a limpeza, o banho, a roupa, o lençol... Não tem curso que nos ensine ou manual de orientação. Só quebrando a cabeça e tentando...
Robert Segal: Numa visita a Casa Lar Mangueira pode-se ver nitidamente como a instituição contraria o estereotipo de “depósito de gente”, como vemos em algumas reportagens pela televisão. Pode-se ver um estabelecimento limpo, equipado e com um material mínimo para o atendimento daqueles jovens. Como vocês fazem para manter e instituição?


Fernanda Vieira: A Casa Lar Mangueira é um dos projetos do Programa Social da Mangueira, e pertence ao Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira. Mantemos um convênio com o Governo do Estado do Rio de Janeiro, através da Fundação para Infância e Adolescência.
Robert Segal: E o que vocês conseguem de recurso é suficiente?


Fernanda Vieira: Não. O convênio cobre apenas cerca de 60% das despesas da instituição. O restante dos recursos, nós os arrecadamos através de doações de pessoas físicas e jurídicas e em eventos organizados na Casa Lar, como bazares e festas.
Robert Segal: Então, o que a Casa Lar Mangueira precisa mais?


Fernanda Vieira: Material de limpeza, de higiene pessoal e alimentos, como frutas, verduras, legumes e carnes.
Robert Segal: Como alguém pode ajudar a instituição que abriga estes jovens?


Fernanda Vieira: De tantas formas... Pode vir conhecer a Casa Lar e conversar um pouco... Apesar de termos necessidades materiais também precisamos contatos. Empresas, instituições de saúde, de assistência social, de orientação jurídica e de eventos culturais são muito bem vindos e não implicam, necessariamente, em investimento financeiro. Mas quem quiser enviar doações, estas serão muito bem vindas. Dependendo da quantidade, podemos buscar no endereço do doador também.
Robert Segal: Como está sua vida hoje?


Fernanda Vieira: Estou me organizando... Me divido entre a Casa Lar, o consultório e minha família. Tem dias que invisto nos três. Em outros, fico mais tempo com os meninos do que com a Maria Clara. Tento compensar no fim de semana, curtindo bastante a pequena.
Robert Segal: Às vezes, você leva sua filha à Casa Lar Mangueira, especialmente, nos fins de semana, quando tem algum trabalho pra fazer lá. Você não tem medo de algo aconteça com sua filha?


Fernanda Vieira: De jeito nenhum! A Casa Lar faz parte da minha vida e principalmente da minha família. Os meninos acompanharam a minha gestação e conhecem a Maria Clara desde que nasceu. Todos têm um enorme carinho por ela e tenho certeza que ela também tem por eles. Desde pequena, vinha para a Casa Lar e ficava na minha sala, no tapete com seus brinquedos. Assiste desenhos e brinca com eles. No ano passado, fizemos seu aniversário de 2 anos na Casa Lar, pois eu e Jorge (marido) sabíamos o quanto era importante esse enlace familiar.
Robert Segal: O que você espera que sua filha aprenda, mantendo contato com jovens deficientes físicos, mentais, psíquicos e/ou sensoriais?


Fernanda Vieira: Amor. Um sentimento incondicional, sem pré-conceitos ou limites. Não quero que ela precise se formar para aprender a importância da diversidade e do respeito inerente às relações. Se ela tiver esses valores solidificados em sua formação, será um ser humano muito mais capaz do que nós somos.
Robert Segal: O que você tem a dizer para as pessoas que lêem esta entrevista?


Fernanda Vieira: Venha conhecer a Casa Lar! Aqui é um espaço de aprendizado constante. Temos amigos que atravessam o oceano para vivenciar experiências com os meninos e formam uma grande “Rede do Bem”, compartilhando sentimentos e ideais.
Robert Segal: E seus contatos?


Fernanda Vieira: casalarmangueira@gmail.com
A Casa fica na Rua João Rodrigues nº 41, São Francisco Xavier, Rio de Janeiro.
Tels: (21) 3298-0470, 3880-4526 e 7140-5841.

Equipe de trabalho com os abrigados da Casa Lar Mangueira.

Dia de festa na Casa Lar da Mangueira.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A "NOVA ORDEM": onde estão as vozes dissonantes?


(Foto: Micha Gordin)
Eles assumiram o Poder depois de décadas de espera. Finalmente, haviam conseguido tirar os outros do Poder, estabelecendo uma nova ordem.
Foram-se mais de meio século esperando uma oportunidade. Mas, agora, ela havia chegado.
Ao invés dos burgueses, o proletariado no Poder. Com isso, o novo governo seria a voz do povo. Marca da nova ordem, cuja palavra-chave era a ruptura com a antiga ordem. Todo Poder emana do Povo!
Mas, como estabelecer a nova ordem? Chegara a hora de tomar as rédeas nas mãos.
Aniquilar os membros da antiga ordem, os burgueses? Eliminar todos aqueles que de alguma maneira deram suporto à antiga ordem, incluindo os intelectuais?
Tanto a primeira como a segunda hipóteses foram experimentadas por outros regimes. Adotar um governo de terror poderia implicar uma onda reacionária. E, além disso, os membros da nova ordem não pretenderam assemelhar-se com a antiga ordem nem, muito menos, com regimes sanguinários. Afinal, os tempos são outros.
Queimar corpos, empalar pessoas e cortar cabeças tornaram-se hipóteses descartadas por aqueles que no momento chegavam ao Poder.
Ademais, a democracia havia se consolidado no país. Qualquer política ou instrumento que pudesse abalar a democracia poderia se tornar um argumento legítimo para reação da antiga ordem, inclusive com o apoio da ordem internacional.
No entanto, havia o desejo de fazer os membros da antiga ordem provarem o seu próprio veneno. Eles haviam usufruído do Poder por décadas, sem abrir qualquer possibilidade de participação das massas populares.
Além de tal desejo, havia o compromisso de se garantir a satisfação às massas, mediante a realização das promessas feitas na campanha eleitoral.
Ao invés de revanchismo, a nova ordem optou pela composição, ou seja, uma aproximação com a antiga ordem, ainda que isso se desse com todas as cautelas. O Poder é caro. E os membros da nova ordem conheciam o árduo caminho para se chegar ao Poder. Neste momento, o importante era agarrar o Poder com unhas e dentes. Perdê-lo, jamais!
A primeira medida foi alocar os membros da antiga ordem em postos dentro do novo Governo. Mas nada que pudesse colocar em risco o novo Poder, pois os membros da antiga ordem não gozavam de força numérica dentro das instituições. Até que tinha voz nestas instituições, mas o som de suas gargantas sempre seria abafado pela maioria, ligada à nova ordem.
De qualquer forma, a democracia estaria assegurada. Nenhuma violação aos direitos fundamentais dos cidadãos se assistiria no país, como outro se experimentou outrora.
Quanto àqueles que davam suporte ao antigo Governo, estes também foram alocados em cargos nas instituições públicas, quando não, também receberam atenção especial da nova ordem.
Aos intelectuais se propôs o atendimento de seus anseios. Alguns foram convidados a compor o novo Governo, enquanto outros passaram a receber condições favoráveis à realização de seus projetos. Por exemplo, um plano para a cultura foi imediatamente aprovado, com vistas abrir os cofres públicos para o financiamento de apresentações de artistas. O que antes cabia à iniciativa privada, enquanto uma típica manifestação burguesa, a partir deste momento, tornou-ser uma questão de Estado, personificado na figura de que governa. A premissa monárquica “L’Etat se moi” foi, ainda que implicitamente, adotada pela nova ordem.
Se por um lado, a ajuda aos intelectuais surtia os efeitos esperados sobre suas ações, por outro, também garantia a satisfação das massas. Estas massas passaram ater a chance de experimentar alguns eventos que pareciam distantes de suas realidades. Mas, as massas não tiveram a oportunidade de se aproximar de todas as manifestações culturais, eis que algumas eram destinadas a um público seleto; um público que podia pagar, considerando os altos preços das apresentações, e/ou um público composto de pessoas importantes politicamente. Às massas uma olhadela pela janela das casas de espetáculo, era o máximo que se via.
Seja como for, panis et circensis à plebe. Além do subsídio para que as massas pudessem ter o acesso mínimo às manifestações culturais foi reservado a elas um plano de ajuda, com o objetivo de matar sua fome, como a nova ordem fez questão de grifar, tanto em sua campanha eleitoral como na oportunidade em que assumiu o Poder.
Famílias na linha de pobreza e abaixo desta linha passaram a ter a chance de comer. “Pela primeira vez na história, um Governo se preocupou com os pobres de maneira efetiva”, diziam os membros da nova ordem.
Ao subir nos palanques, os membros da nova ordem bradavam palavras contra a antiga ordem, numa espécie de catarse, enquanto as massas aplaudiam e gritavam em coro ao que era dito naquele lugar. Linchava-se a antiga ordem como quem bate num boneco de Judas, durante o período que antecede a Semana Santa.
Aliás, diga-se que, a partir da nova ordem, havia um novo santo: o Presidente.
Com seu jeito carismático, tratou de implantar uma política de aproximação com os antigos rivais, nem que para isso fosse necessário abrir os cofres públicos ou alocar gente nas instituições públicas. E aqueles que até então eram contrários ao Governo, ou seja, à nova ordem, logo se viram como quem fica com a mão esticada, esperando uma esmola.
Neste contexto, todos pareciam satisfeitos. O Governo, os membros da antiga ordem, os intelectuais e as massas. Tudo caminhava nos rumos de uma nova ordem.
Entretanto, havia falhas e existiam os críticos a estas mesmas falhas. Pierre era um exemplo dos críticos à política do Governo, à vigência da nova ordem.
Dizia Pierre que os subsídios dados às massas poderiam até matar a sua fome, mas não eram suficientes para libertá-la da dominação estrutural que ainda vigorava, mesmo com a chegada da nova ordem. Para ele, era preciso fazer mais, como por exemplo, investir em educação, uma educação crítica e ecomplexa, com vistas a fomentar cidadões aptos a criticar as coisas e a percebê-las numa ótica de um jogo.
Em resposta às críticas de Pierre, os membros da nova ordem disseram que a libertação das massas se verificava mediante a adoção de programas sociais que lhes garantiria matar a fome e a qualificação para o mercado de trabalho, por intermédio de escolas técnicas, cuja proposta havia sido muito explorada durante a eleição.
Mas, Pierre contra argumentava, dizendo que a política de educação do atual Governo nada mais fazia do que reproduzir o modelo de atendimento ao mercado global de trabalho implementado pela antiga ordem.
As palavras de Pierre foram ganhando, de alguma maneira, vulto entre alguns seguimentos, entre eles, a classe média, sobre a qual recaíam todos os encargos com a política social do atual Governo. Para se custear o projeto governamental era necessário captar verba de algum lugar. E, naturalmente, as classes mais altas usufruíam de privilégios ou sabiam como se preservar da política de arrecadação do Governo.
Mas, as palavras de Pierre tornaram-se um inconveniente para a nova ordem. Estas palavras funcionavam como uma mosca insistente que vive a azucrinar uma pessoa, como um herege.
Como mosca, Pierre deveria ser abatido. Todavia, como dito, isso implicaria em reprodução da política de violação dos direitos fundamentais que antigamente vigiam no país. Com herege, melhor sorte lhe assistiria. Haveria ele de ser “corrigido”.
Mas, diante das insistentes críticas de Pierre, a nova ordem decidiu agir.
Pierre era professor em uma instituição pública de ensino. Logo de início, foi transferido para uma sede da instituição de ensino longe de sua casa. Passou a ter dificuldades de locomoção. Fisicamente, sentiu o desgaste com a longa viagem até seu novo local de trabalho. Financeiramente, Pierre também sentiu o impacto das viagens diárias em seu orçamento, mesmo porque seus vencimentos não aumentaram.
Diga-se, aliás, que o orçamento de Pierre sofreu impacto maior devido à recusa de financiamento de suas pesquisas com verbas públicas. Todos os projetos que apresentava aos órgãos de fomento eram recusados. Nunca mais conseguiu um financiamento para suas pesquisas e, com isso, viu-se também como um professor/pesquisador obsoleto, eis que seu currículo cada vez mais ficava defasado com relação aos seus colegas de profissão.
Um dia, Pierre fazia um lanche com Raymond num café da cidade e, aproveitando a ocasião, fez um desabafo.
Raymond era um dos raros amigos de Pierre (vários tinham lhe abandonado) e quem tinha intimidade suficiente para dizer a este último algumas “verdades”, por mais que estas doessem.
Ao ouvir o desabafo de Pierre, Raymond lhe disse:
– Meu querido amigo, já cansei de te dizer isso: Todos representam. Alguns mais, outros menos, dependendo do momento, do lugar e do público. Alguns assumem papéis principais, enquanto outros atuam como coadjuvantes. E quem não representa, sai de cena.
– E continuou: Mas você não aprendeu ainda.
Os caras finalmente chegaram ao Poder e trataram de ramificá-lo direitinho. A impressão que temos é que todo mundo está comprado ou com medo. A chamada oposição está satisfeita com aquilo que lhe foi oferecido pela nova ordem. Recebeu uns cargos pra calar a aboca e assim foi feito. A classe dos intelectuais foi silenciada. Ela ganhou um bocado de benesses pra ficar na dela. Lembra quando havia tortura neste país e os intelectuais se insurgiram? Além dos revolucionários da luta armada, tínhamos um grupo de pessoas que pintavam, cantavam e escreviam, manifestando-se contra a política do Governo de então. Já as massas... Estas sempre foram massa de manobra. Ela sempre foi composta por muitos, mas que não podiam voar...
Pierre interrompe a fala de Raymond e lhe questiona sobre ética.
– Ética, diz Raymond. A ética que vigora é a ética do Poder. Alguns são o centro, enquanto outros a periferia, mas todo mundo quer uma casquinha. Por que você acha que não existe mais oposição neste país, hein? Direita e esquerda são definições que nem mais cabem no nosso dicionário.
Os integrantes da antiga ordem se deram por satisfeitos com o que foi lhes oferecido. Os intelectuais calaram-se diante dos cofres abertos. Não há um artista ou pesquisador alinhado com o atual Governo, adepto da nova ordem, que não receba uma verbinha para suas apresentações ou seus projetos de pesquisa.
E as massas? Essas deliram com os subsídios dados pelo atual Governo. Elas finalmente podem fazer compras, mas não só de comida. Elas agora podem ir a uma loja e adquirir um aparelho de telefone celular de última geração, comprar uma televisão das mais caras, financiar um automóvel etc. Foram reconhecidas como consumidoras e elevadas à classe média. Um sonho...
Pierre novamente interrompe a fala de Raymond:
– Mas é sobre isso que eu justamente estou falando!
– Eu sei, diz Raymond. E acrescenta:
Mas, toda essa gente conseguiu fazer aquilo que você não fez: representar.
Ninguém se levanta contra a nova ordem, pois depende dela pra tudo. Pra continuar no Poder, ainda que de forma periférica, como coadjuvante; pra conseguir dinheiro para a carreira e pra pesquisas acadêmicas; e pra comprar, comprar e comprar.
Grande parte de seus colegas da instituição de ensino usam máscara. Estão de saco cheio dessa porcaria, mas fingem que está tudo bem. Afinal, quem quer perder a grana de um projeto, ficar de fora da patota?
Veja a Marie. Ela aproveitou a oportunidade e se colocou junto aos adeptos da nova ordem na instituição de ensino. É por isso que ela é agora a reitora. Sacou?
Quanto às massas, estas estão entorpecidas com a febre de consumo. Estão orgulhosas por terem saído da obscuridade social. Pelo menos, é o que elas acham.
As pessoas se acham cidadã porque podem comprar. Não percebem que se tornaram mais uma engrenagem na reestruturação do capital. Muito poucos conseguirão quebrar a estrutura de dominação. Vão continuar a serem porteiros, motoristas, balconistas e por aí vai. E agora com a globalização, o máximo que conseguiram atingir será um cargo de operador de telemarketing. Mudaram definições e atores, mas a estrutura continua a mesma. E o atual Governo nada mudou, apenas refinou a estrutura implantada pela antiga ordem.
E meu amigo – continua Raymond – nesta sociedade da nova ordem, o silêncio impera. A gente parece que vive num Big Brother. O grande irmão a todos observa; nada passa despercebido. E todo mundo vigia todo mundo. É a sociedade do medo!
O Poder se ramificou e o centro não se sustenta sem seus tentáculos, os quais estão entre nós. Você, por exemplo, acho que caiu em desgraça por seus próprios colegas de instituição lhe viraram a cara. Alguns não tiveram a sua coragem. Já outros funcionaram como delatores. Estes últimos aproveitaram o seu sacrifício pra subirem de cargo e, alguns, parecem que conseguiram.
E se você não representa direitinho, aí vem um cara e lhe diz: “Pierre, e com 100% dos votos do público você está eliminado”.
Por isso, meu querido amigo, fique em silêncio. E, se falar, fale bem baixinho... Mas, cuidado para quem você diz as coisas por aí.Não há mais lugar para o dissidente, para a resistência, para a oposição, para as vozes dissonantes. Não existe mais espaço para as inquietudes. A solidariedade acabou. Cada um pensa somente si mesmo. Cada um quer salvar a sua pele. A utopia acabou. Estamos em tempos sombrios travestidos de democracia. Essa é a nova ordem...

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

JUSTIÇA POR UMA "MERRECA": QUANDO O CIDADÃO IMPLORA PELO QUE É SEU.


Baseado em fatos reais.

Caso 1:
Pedro foi a uma agência bancária, a fim de receber uma verba a que tinha direito. Recebeu um bolo de dinheiro e deixou aquela agência bancária, se dirigindo a uma outra agência, de outro banco, com o objetivo de efetuar o pagamento de umas contas.
Para a sua surpresa, no ato do pagamento de suas contas, Pedro descobriu que em meio ao bolo de dinheiro havia uma nota de cinquenta reais falsa. A gerente da agência bancária reteve a nota e Pedro tomou ciência de que a nota seria enviada para o Banco Central.
Além do constrangimento pelo fato de Pedro parecer um emissor doloso de nota falsa, ele foi impedido de quitar uma das contas, considerando que não possuía outra nota como aquela. Acabou pagando a mencionada conta no dia seguinte, mas com multa e juros de mora.
Em posse dos documentos que comprovam a emissão de uma nota falsa por um banco, Pedro apresentou estes mesmos documentos a este banco, recebendo como resposta que seu pedido de concessão de uma nova nota de cinquenta reais seria analisada pela direção da instituição financeira.
Passados dez dias, Pedro retornou à agência bancária que lhe deu a tal nota falsa. Em outra surpresa, Pedro soube que seu pedido de devolução de uma nota de cinquenta reais foi indeferido pela direção da instituição financeira, a tal que lhe emitiu a nota falsa.
Diante do prejuízo financeiro, pela perda de uma nota de cinquenta reais, e da indignação pelo constrangimento passado no outro banco, como se fosse um criminoso (emissão dolosa de nota falsa constitui crime), Pedro decidiu processar o banco que emitiu a nota falsa e que não quis ressarci-lo por isso. Ingressou com uma ação judicial no final do ano de 2004.
Após quase cinco anos de tramitação do processo, a sentença deu ganho de causa a Pedro, condenando o banco que lhe emitiu a nota falsa a indenizá-lo pelos danos morais em quinhentos reais.
Inconformado, Pedro recorreu da sentença, promovendo uma apelação, a qual, um ano depois (o processo já tramitava por seis anos), manteve a sentença, quanto ao mérito, mas aumentou a indenização por danos morais para dois mil reais.

Caso 2:
Ana Maria saiu de casa, pela manhã, com o intuito de obter um empréstimo junto a uma instituição financeira para a compra da tão sonhada casa própria. Muito organizada e em dia com todas as suas obrigações, inclusive financeiras, Ana Maria levou consigo todos os documentos necessários à obtenção de tal empréstimo.
Além de possuir uma renda razoável, uma quantia necessária ao sinal do financiamento, emprego fixo e de estar em dia com todas as suas obrigações, Ana Maria sabia que seu nome jamais havia constado em algum cadastro restritivo de crédito.
Ana Maria chegou à agência da instituição financeira, apanhou uma senha para o atendimento e aguardou a sua vez. Chegada sua hora, Ana Maria apresentou todos os documentos necessários ao financiamento para a aquisição de sua casa própria.
Todavia, Ana Maria teve a surpresa de saber que seu nome constava no cadastro de (consumidores) maus pagadores. Seu nome constava naquele cadastro restritivo de crédito por uma suposta dívida.
Ana Maria explicou ao funcionário da agência que nada devia a qualquer pessoa ou instituição, inclusive ao banco que se dizia credor de uma dívida. Ela deixou a agência e se dirigiu à sede do cadastro de inadimplentes. E lá chegando, teve a confirmação de que seu nome estava registrado naquele cadastro.
Ana Maria entrou em contato com o referido banco, tendo como única resposta que era devedora e que, no máximo, o pagamento da dívida poderia ser negociado.
Ana Maria ingressou com uma ação judicial em face do banco que efetuou o registro de seu nome no cadastro de inadimplentes e que se dizia credor da dívida. Seu advogado juntou as provas e fez as alegações, as quais foram contestadas pelo tal banco, com todos os argumentos insuficientes à justificativa do fato.
Após quase sete anos de pendenga judicial, a decisão definitiva deu ganho de causa a Ana Maria, reconhecendo que esta sequer havia celebrado um contrato de empréstimo com o banco (que se dizia credor). Condenou ainda este banco a pagar a Ana Maria a quantia de cinco mil reais, com juros e correção monetária.

Caso 3:
João e sua família residem a mais de vinte anos num bairro na periferia da cidade. Desde o tempo em que lá foram morar, nunca tiveram uma gota de água sequer nas torneiras de sua residência, apesar dos inúmeros apelos à companhia de abastecimento de água da região.
Entretanto, mesmo sem receberem uma gota de água em sua residência, João e sua família sempre receberam as faturas referentes ao serviço de abastecimento por este bem, via correios. Isso, sem esquecer que o nome de João constava no cadastro de inadimplentes, haja vista o não pagamento das faturas pelo serviço de abastecimento de água.
O máximo que a companhia de abastecimento de água fez, foi enviar a casa de João uma equipe técnica, a fim de apurar os fatos por ele alegados. Os técnicos constataram que havia uma falha na tubulação (pertencente à própria companhia) de água que deveria abastecer a residência de João e seus familiares. Além disso, viram os técnicos da empresa que não havia hidrômetro na casa de João. Então, os mesmo técnicos se perguntaram como era realizada a aferição do consumo de água na residência de João, cujos valores só cresciam nas faturas.
Em suma, João não recebia água em sua residência, mas recebia, mês a mês, as faturas, cobrando-lhe valores por um bem que sequer usufruía.
Cansado da situação e informado sobre seus direitos, João decidiu acionar a empresa de abastecimento de água junto ao Poder Judiciário.
Com o intuito de dirimir o conflito, foi marcada uma audiência de conciliação para seis meses depois do protocolo da entrada (chama-se distribuição) da ação judicial. Nesta ação, além dos pedidos de instalação de um hidrômetro e do reparo na tubulação de água (de propriedade da companhia de abastecimento), João pleiteou indenização por danos morais, eis que seu nome havia sido incluído no cadastro de inadimplentes, sem que tivesse qualquer culpa.
Cabe lembrar que João recebia as faturas pela água que sequer chegava à sua residência.
No dia e hora da audiência de conciliação, João e os prepostos da empresa de abastecimento de água se sentaram à frente do conciliador. Após as advertências do conciliador sobre os riscos de uma ação judicial – demora no curso da ação, possibilidade de derrota (sucumbência) das partes etc. – chegou-se aos seguintes termos: a empresa de abastecimento de água instalaria o hidrômetro na residência de João, promoveria o reparo na tubulação de água e retiraria o nome de João do cadastro de inadimplentes, enquanto João, em contrapartida, pagaria parte do débito que constava em seu nome (diga-se, por uma dívida que sequer havia feito, uma vez que nunca usufruiu do abastecimento de água em sua residência).

Para refletir:
Estes são três casos de cidadãos que lutaram por seus direitos. Conscientes do que tinham direito e diante de fatos constrangedores, no mínimo, Pedro, Ana Maria e João procuraram o Poder Judiciário.
Pedro e Ana Maria obtiveram sucesso em seus respectivos intentos judiciais, mesmo após anos de espera. Pedro conseguiu a indenização por danos morais no valor de dois mil reais, além de ser-lhe paga uma nota de cinquenta reais, a título de danos materiais. Enquanto isso, Ana Maria recebeu a quantia de cinco mil reais.
Nos casos de Pedro e Ana Maria, os magistrados entenderam que houve dano moral, mas preocupados em “não causar enriquecimento sem causa” em favor daqueles, decidiram por indenizações que julgaram ser razoável e proporcional aos danos experimentados. Além disso, seguindo a doutrina jurídica e a jurisprudência (entendimento reiterado dos Tribunais de justiça), tomaram cuidado de não condenar os bancos em quantias consideradas altas.
Tudo parece fazer sentido se não fossem alguns detalhes. Tanto Pedro como Ana Maria não contribuíram para os danos que lhes foram causados pelos bancos. Ana Maria sequer fez um empréstimo num banco. Como poderia ter seu nome incluído no rol de maus pagadores?
Além disso, ambos os processos duraram mais de cinco anos. Por anos a fio, as ações judiciais de ambos tramitaram nos Tribunais de Justiça, até que, finalmente, decisões definitivas foram tomadas.
Ademais, cabe ressalva para o fato de que os réus nas duas ações judiciais eram instituições financeiras de grande porte, bancos com lucros líquidos na esfera de bilhões de reais.
Vigoram princípios entre os magistrados (juízes e desembargadores) de que as decisões judiciais, além, de reparar ou compensar os danos causados, devem servir de meio para “punir e educar” (finalidade punitivo-pedagógica da decisão judicial) as empresas fornecedoras de produtos e prestadoras de serviços, com o objetivo de melhor atender os clientes e os cidadãos, evitando os riscos e danos de seus empreendimentos e suas atividades.
Engraçado, não? As duas instituições financeiras acionadas respectivamente por Pedro e Ana Maria ganham anualmente bilhões de reais, tendo a primeira sido condenada, após cinco anos de pendenga judicial, ao pagamento de uma quantia de dois mil reais, enquanto a segunda foi condenada, após sete anos de trâmite da ação, a pagar a Ana Maria a importância de cinco mil reais.
Tudo isso faz refletir sobre a efetiva reparação dos danos causados a dois cidadãos: Pedro e Ana Maria. Da mesma forma, serve como ponto de reflexão a tal finalidade punitivo-pedagógica da decisão judicial (sentença, na primeira instância; e acórdão, na segunda instância). Como “punir e educar” instituições que faturam anualmente bilhões de reais com indenizações que sequer chegam ao patamar de mil reais por ano em que as ações judiciais correram nas mãos dos funcionários do Poder judiciário.
No caso de João, a coisa tomou uma dimensão de total desrespeito para com um cidadão, podendo-se até falar em agravamento da situação.
Seja munido pelo desejo de se livrar (ou livrar o Poder Judiciário) de mais um processo, pela vontade de “colaborar” para a solução de um conflito, ou seja lá pelo que for, o conciliador deixou de considerar fatos relevantes na promoção da Justiça, como o fato de ser João cobrado pelo consumo de água em sua residência, cujo serviço jamais foi usufruído por ele. João não tinha acesso à água por culpa exclusiva da companhia de abastecimento e, mesmo assim, seu nome foi negativado no cadastro de inadimplentes.
Mesmo diante desses fatos, João ainda teve que pagar parte da dívida por um serviço que jamais teve a chance de usufruir, para, somente depois, ter água em sua residência.
O acordo foi assinado pelas partes, pelo conciliador e, posteriormente, por um juiz de direito (ou, como se chama, juiz togado).
Detalhes: A companhia de abastecimento de água fatura anualmente milhões de reais, por um serviço público. Acompanhai de abastecimento de água teve ciência da ilegalidade de seus atos. João nunca teve acesso à água e, mesmo assim, teve que pagar por ela. João somente estudou até o quarto ano do ensino fundamental. Mesmo tendo ciência dos fatos e das responsabilidades da empresa de abastecimento de água e das incongruências (assim por dizer), o juiz de direito ratificou o que ficou decido na audiência de conciliação. Ou seja, João não usufruía do serviço de abastecimento de água e ainda foi convencido a pagar por isso para que seu nome fosse retirado do cadastro de inadimplentes.
Como e por quê? O juiz achou justo e equitativo os termos do acordo? O mesmo juiz não leu os termos do acordo? O juiz não quis assumir mais um trabalho, com mais um processo, entre tantos outros que aparecem à sua frente, dia após dia?
O curioso é que o fato foi noticiado pela mídia como “mais um conflito resolvido pelo Poder Judiciário no processo de resolução de conflitos com ênfase na conciliação”, portanto, “mais um caso de promoção rápida da Justiça”.
Curioso, não?
Pois é. Tudo isso não passa de uma Justiça por uma “merreca”, quando o cidadão tem que implorar pelo que é seu.
Assim bate-se o martelo no país. Data venia (termo em latim que significa “com a devida licença”, usualmente utilizado nos Tribunais), aos magistrados e conciliadores.

ANTROPOFAGIA


Outro dia, pela manhã, ao sair de casa, me deparei com a seguinte cena: uma senhora idosa caminhava pela calçada quando foi atropelada por um jovem montado numa bicicleta, enquanto trafegava pela calçada, em alta velocidade. Após ser atingida, a senhora idosa foi lançada ao chão, enquanto o jovem rapaz reclamava pelo fato da mesma “não olhar por onde anda”.
Dentre as pessoas que passavam no local, poucas deram atenção ao fato. Tudo parece ter ocorrido numa dimensão paralela ao cotidiano daquelas pessoas.
Eu saia de portaria do prédio onde resido, mas ainda estava na “gaiola” que nos separa da “selva de pedra” e das “criaturas malignas lá de fora”.
Pude ver a cena por completo, até mesmo o comportamento do jovem que andava de bicicleta e que havia atropelado a senhora idosa, enquanto esta caminhava na calçada, diga-se, o devido lugar de pedestres, mas local inapropriado para veículos, inclusive os de duas rodas.
O jovem rapaz veio em minha direção e, olhando-me, atou a sua bicicleta na grade do prédio onde moro com uma corrente. Ficamos nos encarando. Eu com uma postura de reprovação à conduta do jovem e ele me encarando, talvez esperando que eu falasse alguma coisa, para quem sabe, se redimir ou até me agredir, nem que fosse verbalmente, pois sua postura sempre foi a de quem tivesse razão.
Confesso que tive uma vontade de falar algo, mas preferi ver a dinâmica dos fatos, considerando que já havia algumas pessoas ajudando a senhora idosa a se recuperar. Preferi ver a cena, como quem porta uma câmera e filma tudo.
Em primeiro plano, vi o jovem rapaz se comportar de maneira antissocial (como se não bastasse andar de bicicleta em cima da calçada – lugar de pedestres – e de atropelar uma pessoa, sem ao menos se desculpar, ainda por cima utilizou a grade de uma propriedade alheia sem, ao menos, pedir licença). Pude assistir, ao fundo, a senhora se recuperando, com a ajuda de alguns transeuntes solidários, e, mais ao fundo, o ritmo frenético das pessoas, com os automóveis adornando a paisagem naquele instante.
Naquele dia, acordei com um alto astral e havia prometido a mim mesmo que não me indignaria, seja com que coisa fosse, mesmo com um jovem imbecil que se acha com razão, ao transitar com sua bicicleta em cima de uma calçada e, além disso, causar danos a outras pessoas.
Outro dia, vi um jovem dar explicações no sentido de que “a gente anda com a bicicleta na calçada para não se arriscar junto aos carros”.
Tudo bem. Entendi. Ele não pode se arriscar junto aos carros, mas pode arriscar a integridade física de outras pessoas ao transitar com sua bicicleta em cima da calçada. É isso?
Voltando àquele dia, partia eu para a praia, a fim de “tirar o mofo” da semana. Mas, mesmo ante a promessa de não me indignar com as “coisas da vida cotidiana”, o atropelamento da senhora idosa mexeu comigo. Fiquei mais ligado às “coisas da vida cotidiana”.
De minha casa à praia, percorro três quarteirões. Naquele dia, enquanto me dirigia à praia, além de assistir a cena grotesca de um jovem numa bicicleta atropelar uma senhora idosa, enquanto esta andava na calçada, assisti um motoboy (figura urbana que se prolifera como pombo) fazendo o mesmo que o jovem ciclista. Só que desta vez, ao invés de uma bicicleta, era uma moto. E lá se ia o easy rider. Born to be wild!
Pude ainda, no trajeto, ver um carro avançar um sinal fechado, enquanto outro era estacionado por seu motorista em cima da faixa de pedestres.
Ao chegar à praia, coloquei-me em conforto, praticamente à beira do mar, com uma cadeira e uma barraca, enquanto o sol e o mar davam conta da bela paisagem. Sentei-me e fiquei ali, curtindo o sossego, a música em meu fone de ouvido e o jornal com suas notícias.
À beira do mar, pessoas passavam, pra lá e pra cá. Outras pessoas conversavam, liam revistas ou jornais, ou ainda curtiam o sol. Crianças brincavam na beira da água ou na faixa de areia próxima a ela.
Mas, havia um desarranjo à cena paradisíaca. Um grupo de jovens (meninos e meninas) jogavam bola, naquilo que se conhece popularmente como “altinho”.
Assim como transitar de bicicleta ou moto em cima da calçada, avançar um sinal fechado e estacionar veículo em cima da faixa de pedestres, jogar “altinho” à beira mar, pelo menos antes da tarde, nesta cidade, é considerado ilegal. Mas, talvez nem precisasse ser ilegal, pelo risco que representa, basta considerá-lo perigoso. Imagine se a bola acerta uma pessoa e, especialmente, a cabeça de uma criança?
Fiquei ali sentado, na minha cadeira de praia, observando a cena e me lembrei de tudo que havia visto naquele dia, ou seja: um jovem numa bicicleta atropelar uma senhora idosa, enquanto esta caminhava pela calçada; um homem transitando com sua moto em cima da calçada; um carro avançando um sinal fechado; outro carro sendo estacionado em cima da faixa de pedestres etc.
Lembrei-me também de duas pessoas idosas que, semanas antes, de maneira arrogante, reivindicaram prioridade nas filas de cinema e supermercado, respectivamente. Para mim, o fato de exigir direitos não implica em comportamento antissocial ou agressivo, inclusive por idosos.
Mas, pude ainda lembrar-me do jovem Rafael Mascarenhas, de 18 anos, filho da atriz Cissa Guimarães com o músico Raul Mascarenhas, que, ao andar de skate num túnel interditado para manutenção, numa madrugada, foi atropelado por um carro conduzido por outro jovem, Rafael Bussanra, de 25 anos.
As notícias narram conclusões policiais de que naquela madrugada, o veículo guiado por Rafael foi liberado por dois policiais militares que se encontravam próximo ao local do atropelamento, logo após o ocorrido, mediante o pagamento de propina, intermediada pela família de Rafael (vide, por exemplo, Jornal O Globo, de 20/07/2010, caderno Rio).
Diante daquele fato, perguntei-me como poderia uma família acobertar um delito cometido por um jovem, ainda que isso fosse feito “em nome do amor”. Será que acobertar um delito (no caso um homicídio, ainda que culposo, ou seja, sem a intenção de matar alguém) cometido por uma pessoa expressa esse “amor”?
Ora, amor não implica educação para a construção da responsabilidade nos filhos? Amor e impunidade se equivalem?
Pelo foi noticiado, preferiu-se dar uma graninha para que os policiais militares fizessem “vista grossa”.
Há uma série de possíveis motivos para a antropofagia que assola esta “sociedade civilizada”, adoradora de liberdades ilimitadas.
Há que se assumir que qualquer menção à palavra “limitação” ou “restrição”, ainda que mínima de liberdades individuais, em prol da harmonia coletiva, causa um arrepio nas pessoas. Talvez, a “geração reprimida” tenha oferecido “liberdade” demais aos seus pupilos, fazendo com estas mesmas “liberdades” se voltem contra seus beneficiários. Da ditadura à liberação geral. Da repressão à libertinagem.
Tal argumento pode parecer retrógrado, reacionário ou antiquado, uma vez que se desconsiderem fatos históricos e culturais em “sociedade civilizadas”, como a sociedade brasileira.
Ademais, não há como negar contribuições tecnológicas ao processo de socialização na dita pós-modernidade. Redes sociais como Orkut, Facebook, Twitter etc., além de contribuir na comunicação e informação, parecem sintetizar a sociedade narcísica e hedonista, onde o que importa é fama e prazer.
Cultua-se o corpo. Músculos e nádegas representam o novo padrão a ser seguido, adornado por tatuagens que, se outrora remetiam a uma identidade subversiva, atualmente servem de marca de identificação. Mas do que gravar a marca da tribo, talvez se pretenda como nunca marcar a história de cada um. De uma forma de totem a uma espécie de DNA, a afirmação do self.
Pode-se ainda ficar famoso com um pequeno filme no Youtube, por exemplo. Não há mais necessidade de produtor, diretor ou patrocinador. Basta uma câmera ou um aparelho celular na mão e uma ideia na cabeça e pronto: qualquer um pode ficar famoso. O engraçado, o grotesco, o aterrorizante, o erótico... Tudo vale numa “sociedade livre”.
A sociedade do eu e do agora é que vale. Talvez por isso seja mais difícil perceber o outro como sujeito de direitos. A interação com o outro se dá pelo prazer, ainda que virtualmente.
Outro possível motivo que pode ser atribuído as tantas “liberdades” é a escassez de atenção de pais com seus filhos.
Numa sociedade em que se vive uma escravidão pós-moderna, somos empurrados para o trabalho em tempo praticamente integral. Se por um lado, isso se dá pela necessidade de sustento de nossa família, por outro, havemos de reconhecer nosso desejo em sermos reconhecidos por familiares, pelos colegas de trabalho e pela sociedade. Não basta ser um bom profissional, temos que nos sentir (ou fazer com que os outros nos sintam como) “fora de série”, “excelentes” ou “imprescindíveis”. Ninguém que ser transformar (ou ser transformado) em objeto de descarte numa sociedade de consumo.
Ademais, o alto custo de vida, aliado ao medo de ser taxado de vagabundo, mesmo que por um breve momento de ócio, faz com que nos afastemos cada vez mais de nossos lares e de nossos entes.
E, muitos de nós, quando em casa, nos sentimos culpados em oferecer limites aos nossos jovens. “Puxa, passo o dia inteiro fora, trabalhando, e justamente agora que estou com ele, vou reprimi-lo”.
Esquecemo-nos do preceito básico de que “quantidade não é qualidade”. E que umas poucas horas de dedicação podem repercutir melhor do que horas de desprezo e desatenção.
Estes são alguns dos motivos que podem ser atribuídos para que nossos jovens se comportem tão narcisicamente e de maneira egoísta. Afinal, o narcisismo, o egoísmo e o hedonismo foram legados de outras gerações. Mas temos com tanta “liberdade” que sequer sabemos o que fazer de construtivo com ela.
Comportamentos individualistas aqui descritos podem simbolizar máximas como “o que importa é levar vantagem” ou “meu pirão primeiro”, ou ainda diferenciar “malandros e manés” e “corajosos e covardes”.
Diga-se, aliás, que qualquer atitude corajosa pode colocar em risco seu autor. Numa sociedade antropofágica, vence quem é mais forte ou quem possui a arma mais poderosa. Entre bancar o covarde e sair ileso, assim como teria feito Hans Staden, na presença dos índios Tupinambás, no século XVI, e ser corajoso e ter a carne devorada, justamente por isso, prefiro me calar, observar e escrever (capacidade muito além daqueles que enaltecem músculos e nádegas).
Pode parecer covardia, falta de postura ética ou de solidariedade. Contudo, numa sociedade antropofágica, deve-se avaliar todos os riscos de receber um tiro ou uma barra de ferro na cabeça, por uma simples discussão de trânsito.
Essa é a sociedade civilizada, dotada das maravilhas que somente liberdades ilimitadas podem proporcionar.
Que se pague o preço ou incorre-se no risco de ser devorado pelos canibais.

O SUBLIME NÃO SE RELACIONA COM O PATÉTICO


Por Verônica Malkah.


Ao meditar sobre essa frase - “o sublime não se relaciona com o patético”, tomei ciência de minha própria arrogância, da minha relação arrogante com o Sagrado.
O Sagrado não se relaciona com o que seja patético... e como somos patéticos na tentativa de nos relacionarmos com o Sagrado! Como somos medíocres, achando que o Sagrado nos deve a revelação e o esclarecimento de nossas angústias, o afastar de nossas dores e de todo e qualquer sofrimento. O Sagrado nos deve isso?
Achamos que podemos desbravar o Sagrado, penetrar em seus mistérios e que por sermos excelentes desbravadores (afinal, somos eruditos, estudiosos, temos uma boa capacidade de raciocínio), merecemos a recompensa da plenitude, da prosperidade, da sabedoria infinita, do final feliz para sempre.
O Sagrado não nos deve nada, o sublime não se aproxima da barganha, da chantagem, das falsas adorações e rezas.
Somos tão arrogantes espiritualmente que afastamos nossos próprios corpos da idéia de desenvolvimento, achando que apenas o intelecto nos abrirá as portas do paraíso.
Nos contentamos em “intelectualizar” sobre a vida e nos esquecemos que viver é correr riscos, é se abrir para o desconhecido, para aquilo que não controlamos, não sabemos, não prevemos. E, para anestesiar o medo infantil e imaturo da morte (pois para nós, o risco de nos abrirmos e sofrermos se equivale a morrer) nos dedicamos única e exclusivamente a sobreviver. E ainda exigimos que o Sagrado nos conceda uma sobrevivência próspera, com conforto, pouco trabalho e muito prazer...
Quem restringiu a relação com o Sagrado a essas míseras barganhas?
Se não estamos vivendo de acordo com as nossas vontades pessoais então nos lembramos do Sagrado e passamos a nos dedicar a uma pseudo espiritualidade: vamos às missas, rezamos, oramos, meditamos, compramos livros e talismãs, nos inscrevemos em cursos e palestras de gurus e mestres, dizemos ao universo o quanto desejamos a conexão com o Sagrado, quando na verdade desejamos apenas satisfazer nossas vontades pessoais.
Será que continuaríamos indo às missas, aos templos, às palestras, às rezas se soubéssemos que nada disso é garantia de afastarmos a dor e o sofrimento? Será que seríamos fiéis em nossa conduta espiritual se, de fato, percebêssemos que a despeito de toda essa dedicação o Sagrado continuaria a não nos dever nada?
Será que realmente sabemos o que é o Sublime ou nos relacionamos apenas com uma fantasia irreal sobre um ente que nos concede recompensas ou punições?
Se não houver uma profunda reflexão sobre essas questões e um grande esforço em identificar a forma contemporânea (rasa e superficial) de se aproximar do Sagrado, não conseguiremos eliminar os resíduos internos que nos impedem de saborear uma gloriosa experiência significativa (que não se confunde com uma experiência prazerosa ou de acordo com as nossas vontades).

segunda-feira, 5 de julho de 2010

FUTEBOL NÃO É SÓ UM JOGO.


No dia 2 de julho de 2010, a seleção brasileira de futebol foi derrotada pela equipe holandesa, por 2 a 1, de virada, ficando de fora da luta pelo título da Copa do Mundo, realizada na África do Sul.
Não tardaria muito para que, logo após a partida válida pelas quartas-de-final da Copa do Mundo, críticas surgissem tanto da imprensa como por parte do público, remetendo a premissa que “o importante é ganhar”, ainda que uma equipe de futebol não consiga desenvolver o jogo mais bonito entre as quatro linhas.
São raras as experiências de seleções de futebol que, mesmo eliminadas das Copas do Mundo, conseguiram um lugar de honra no meio aos derrotados. A Hungria de 1954, a Holanda de 1974 e o Brasil de 1982 sintetizam o brilho de equipes que conseguiram, mesmo não vencendo a Copa do Mundo, um lugar honroso na história.
Mas, no caso brasileiro, gera dúvida a preferência pelas seleções das Copas do Mundo de 1982, que não venceu a referida competição, e a seleção de 1994, por exemplo. Futebol bonito ou de resultado, o que vale mais? A dúvida ainda persiste.
Argentinos, uruguaios, alemães, italianos, franceses e ingleses naturalmente também tem suas dúvidas quanto às seleções e no tocante à eficiência ou beleza do futebol jogado por suas respectivas seleções. A seleção argentina “perdedora” de 1994 jogava um futebol mais bonito que a campeã de 1978? A seleção italiana de 1970, mesmo tendo sucumbido ante o time brasileiro daquele ano, jogava melhor do que a campeã de 1982? E a seleção francesa de 1982 foi melhor do que a de 1998?
É claro que, quando há a conquista de um título mundial em jogo e a contribuição de craques como Maradona, Paolo Rossi e Zidane no intento, um peso maior se dá a seleção de futebol em questão.
Por falar em craques, existe a disputa entre os povos de quem teria sido o melhor jogador de futebol de todos os tempos. Pelé ou Maradona?
E até mesmo no plano doméstico este dilema persiste. Entre os franceses, por exemplo, reina a dúvida de quem teria sido o maior jogador daquele país. Platini ou Zidane?
Se o que importa é resultado, Zidane parece possuir uma vantagem, ainda que ligeira, sobre Platini.
A disputa entre Pelé e Maradona ao título de Deus do futebol (vale até lembrar que o segundo inclusive possui adeptos em uma igreja – a Igreja Maradoniana), trata de colocar outros grandes craques, tais como Beckenbauer, Bobby Charlton, Bobby Moore, Cruyff, Puskas, Di Stefano, Eusébio, Garrincha, Roberto Baggio, Platini, Zidane, Zico etc., senão na berlinda, num patamar inferior, de "semideuses" ou, quiçá, de "simples mortais".
Mas, voltando à eliminação da equipe brasileira da Copa do Mundo de 2010, uma coisa chamou a atenção: o fato de alguns meios de comunicação, jornalistas e até mesmo parte do público se utilizar de um eufemismo para aliviar o sentimento de decepção ou dor pela eliminação da equipe canarinho da competição em tela.
A expressão “é só um jogo de futebol” como uma espécie de analgésico para aplacar a dor ou a fúria dos torcedores brasileiros pela eliminação de sua seleção foi dita na televisão por várias vezes e escrita em jornais.
No caso argentino, por exemplo, parte da imprensa local foi menos condescendente, cabendo ao público o acaloramento de sua seleção, mesmo com uma derrota acachapante para a equipe alemã. Uma derrota de 4 a 0.
Tudo bem. Pode-se crer que a eliminação de uma seleção nacional de futebol de uma Copa do Mundo não mereça ser tratada como um (quase) crime, assim como fizeram com as seleções brasileiras de 1974 e 1990, as italianas de 1966, 2002 e 2010, e as francesas de 2002 e 2010. Isso, sem deixar de mencionar a seleção nigeriana, punida pelo governo pela eliminação da Copa do Mundo de 2010, e equipe do Zaire de 1974. Zaire, aliás, que sequer existe mais, tendo sido substituído na ordem mundial pela República Democrática do Congo.
Mas, cabe licença àqueles que acreditam que “é só um jogo”. Trata-se de muito mais do que somente um “jogo”.
O futebol é uma (quase) religião, conforme já foi reconhecido pela Intelligentsia (academia, imprensa, intelectuais e políticos) e pelo público em geral. Há até quem diga se tratar de um “ópio do povo”.
Se Maquiavel conhecesse o futebol e seu impacto na mente coletiva, muito provavelmente teria recomendado o esporte à política do conquistador virtuoso. Panis et circensis a plebe. Foi assim que governos ditatoriais exploraram o esporte. Quem pode se esquecer, por exemplo, do sorriso do general Jorge Videla ao entregar o troféu FIFA a Daniel Passarella, capitão da seleção argentina, logo após a vitória na partida final contra a Holanda, em 1978.
E os campeonatos nacionais também servem a este propósito. No Brasil, por exemplo, o campeonato nacional de futebol com um número excessivo de clubes foi a tônica da Confederação Brasileira de Desportos (CBD) e, depois, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), para “agradar” geral e manter as mentes e corações ocupados, entorpecidos. Isso somente mudou com a redemocratização do país e com a rebeldia do chamado Clube dos Treze, em 1987.
O futebol é mágico e trágico, ainda mais quando disputado para e em uma Copa do Mundo.
Como esquecer o conflito fora e dentro de campo que envolveu El Salvador e Honduras, em 1969, por ocasião da disputa por fronteira e por uma vaga na Copa do Mundo do México, no ano seguinte? A Guerra do Futebol (Football War) entrou para a história.
Como esquecer a “divisão de águas” promovida pela seleção brasileira de Pelé, Gérson, Tostão, Jairzinho, Carlos Alberto Torres, Rivelino e cia., campeã da Copa do Mundo de 1970? Mas, consideram-se também as contribuições das seleções da Holanda 1974 e da Itália de 1982, para o bem e o mal do “futebol arte”.
Como esquecer as “zebras” galopando pelos gramados, ou, recorrendo-se à metáfora religiosa, numa reconstrução da contenda entre David e Golias? Coreia do Norte 2 x Itália 1 (1966), Espanha 1 x Honduras 1 (1982), Argélia 2 x Alemanha Ocidental 1 (1982) e Camarões 1 x Argentina 0 (1990) são alguns exemplos bíblicos do futebol nas Copas do Mundo.
Como esquecer as disputas entre los hermanos sudamericanos Brasil e Argentina, em 1974, 1978 e 1990?
Como não lembrar a importância da vitória da seleção argentina de Maradona sobre o English Team de 1986, considerando que os dois países travaram um conflito bélico pela posse da Ilhas Malvinas ou Falklands? Maradona fez com a zaga inglesa aquilo que os Harriers da Rainha Mãe, ou por que não dizer de Margareth Tatcher (A Dama de Ferro), fizeram com a Armada argentina em 1982.
Da mesma sorte, não se pode esquecer partidas como aquela realizada em 1974, entre Alemanha Ocidental e Alemanha Oriental, que terminou com a vitória da segunda por 1 a zero. Guerra Fria!
As "duas Alemanhas" somente se reunificariam em novembro de 1989, após a queda do Muro de Berlim.
E que dizer de embates épicos, como Alemanha Ocidental x Hungria (1954), Inglaterra x Alemanha Ocidental (1966), Brasil x Inglaterra (1970), Alemanha Ocidental x Holanda (1970), Brasil x Itália (1982) e Alemanha Ocidental x França (1982), entre outros. Guerra entre Deuses!
A magia do futebol se manifesta, especialmente numa Copa do Mundo, quando acontece um duelo entre (semi) deuses. Pelé x Bobby Moore, Cruyff x Beckenbauer etc.
É o futebol que exprime o holocausto e a catarse do público, num alívio coletivo de milhões de pessoas, graças às vítimas sacrificiais. Bodes expiatórios e cordeiros imolados para aplacar a fúria dos Deuses!
O futebol também permite o ressurgimento das cinzas de figuras dionisíacas como Ronaldo, “morto” desde a véspera da partida final contra a França, em 1998, e “ressuscitado” na Copa do Mundo de 2002. Favorece a ascensão de entes ao Olimpo, como Pelé e Maradona, ou a ida ao inferno, como aconteceu com o goleiro brasileiro Barbosa, após a derrota do selecionado brasileiro para a equipe uruguaia (a celeste olímpica), na final da Copa do Mundo de 1950, num fenômeno conhecido como Maracanaço (a tragédia do Maracanã que silenciou aproximadamente 200 mil pessoas), e, recentemente, com o meiocampista Felipe Melo, expulso nas partidas contra Portugal e Holanda, na Copa de 2010.
E, além disso tudo, o futebol permite a comunhão orgânica e religiosa entre os homens, para além dos moldes contratualistas da modernidade e de padrões mecânicos e burocráticos. Vê-se isso nas peladas nos campos de areia, barro, cimento ou grama, nos jogos de botão e nas trocas de figurinhas. Figurinhas, compartilhadas por meninos e meninas, homens e mulheres, como verdadeiras hóstias dominicais.
Com a devida licença àqueles que acham que tratar-se de “só um jogo”. Mas, é muito mais do que isso. O futebol sintetiza o sagrado e o profano, o tribal e o hedonista, o solidário e o egoísta.
O futebol revela a essência humana; o homem tomado em sua complexidade. Reconhece-se, pois, o homo erectus, homo faber, homo habilis, homo regilious, homo æestheticus, homo æconomicus, homo politicus, homo sapiens e o homo futebolensis.
Portanto, perdoem-me, mas futebol é muito mais do que “só um jogo”.

sábado, 10 de abril de 2010

A FILA



Neste fim de semana, minha mulher, Anita, e eu estávamos em uma fila, no interior de um cinema localizado na zona sul da cidade do Rio de Janeiro, para assistir ao filme O Segredo de Seus Olhos (El Secreto de Tus Ojos), de Juan José Campanella.
Chegamos cedo ao cinema, compramos nossos ingressos e fomos a uma livraria no interior do próprio cinema. Se tivéssemos chegado ao cinema uns dez minutos mais tarde, provavelmente, não conseguiríamos adquirir os ingressos para o filme em tela.
Uma vez na fila, podemos observar o comportamento de pessoas próximas, como conversas alegres, aparições de personalidades cinematográficas (as quais compareceram para o lançamento de um outro filme) e pessoas pra lá e pra cá no saguão do cinema. Tivemos também a chance de presenciar alguns fatos curiosos, senão, lamentáveis ou que merecem reflexões.
Vimos pessoas reclamando do fato de, num sábado à tarde, num dia chuvoso, o cinema estar lotado. “A gente sai de casa, num sábado, esperando assistir a um filme tranquilamente, e se depara com um cinema lotado!” Um estresse, ao nosso sentir, desnecessário para quem se propõe a um lazer numa cidade grande.
Enquanto estávamos na fila, aguardando para ingressar na sala de projeções, uma mulher, aparentando uns quarenta e tanto ou cinqüenta anos de idade, tentou se colocar à nossa frente, naquilo que popularmente se chama “furar a fila”.
Percebemos que ela fez aquilo dissimuladamente, a fim de que não percebêssemos, mesmo que as poltronas fossem marcadas para cada espectador.
De uma maneira muito delicada, minha mulher informou a referida mulher que nós também estávamos na fila, aguardando nossa vez de entrar na sala, e que o fim da fila ficava um pouco mais atrás de nós.
Não sei se surpresa com a informação ou tentando bancar a esperta, a mulher ainda argumentou que “ela estava na fila, mas que havia ido falar com uns dos funcionários do cinema, com o intuito de saber qual era a sala em que passaria o filme O Segredo de Seus Olhos.
Minha mulher a explicou, ainda de maneira gentil, que nós também tínhamos falado com os tais funcionários do cinema, a fim de saber a resposta a mesma pergunta que a dela.
O detalhe é que, enquanto eu falava com um dos funcionários, minha mulher guardava meu lugar na fila, ao seu lado, para assistirmos ao filme. E a tal mulher sequer estiveram na fila anteriormente, como alegara.
Ou seja, além de “furar a fila”, a mencionada mulher tentou “se dar bem”, às nossas custas, ou aproveitar-se de nossa "ingenuidade".
Mas isso não foi tudo, pois quando a sala de projeções foi aberta para quem aguardavaa na fila, uma outra mulher, de cabelos grisalhos, passou bem a nossa frente, a toda velocidade (no exato momento em que estávamos prestes a apresentar nossos bilhetes), entregou seu bilhete a uma funcionário do cinema e, se falar uma palavra sequer, partiu rumo a seu assento.
Algumas pessoas podem até dizer: “Poxa, como esse casal esquenta a cabeça com bobagens!”No entanto, cabe esclarecer que em nenhum momento comportamento-nos de modo agressivo, por mais que tenhamos nos sentido ofendidos.
Mas, ofendidos por quê?
Conversamos (minha mulher e eu) e chegamos a algumas conclusões, entre elas, as seguintes:
A tentativa da “furar a fila” por parte da primeira mulher e a efetiva “furada de fila” por parte de outra nos remeteram à percepção de como as pessoas manifestam um comportamento hedonista (uma espécie de culto ao “eu”). Trata-se, pois, ainda que de uma maneira inconsciente, de dizer (numa linguagem não-verbal) que as outras pessoas não existem, na melhor das hipóteses.
Numa hipótese diversa, pode significar “eu sou mais importante que você, por isso, mesmo tendo chegado depois, vou passar a sua frente e que se dane”.
Isso, sem deixar de mencionar que os comportamentos das duas mulheres nos fizeram refletir para o fato de que, mesmo nos momentos de lazer, estamos correndo (ainda que não saibamos por quê ou pra que).
No caso da mulher de cabelos grisalhos, poder-se-ia considerar a prioridade de atendimento, uma vez que a mesma possuísse mais de sessenta anos de idade. Trata-se de um direito subjetivo dela e de um dever legal e ético da sociedade, nclusive nós.
Entretanto, ainda assim, pode-se crer que a distinta senhora dispensou uma oportunidade para demonstrar para a sociedade (a qual faz parte) que sua (talvez mísera)vida lhe valeu de aprendizagens valiosas, como o respeito aos outros, ainda que se exerça um direito.
Não se trata de mesquinhez ou sentimento de superioridade nossa, mas, cremos que dizer “com licença”, “por gentileza”, “por favor” e “obrigado” constituem manifestações nobres de se exercer um direito subjetivo e que, em nada enfraquece o exercício de tal direito ou diminuem uma pessoa perante as outras.
Fala-se muito sobre a “falta de educação dos jovens”, que seriam ainda “hedonistas”, “narcisistas” ou “presenteístas”. Mas, pelo que pudemos ver no cinema, neste fim de semana, nossas “pessoas maduras”, “velhas”, da “terceira idade” ou da “melhor idade”, como se quiser falar, não conseguiram ser mais “educadas”, “civilizadas” ou “socializadas” do que nossos jovens. Talvez tenham perdido várias chances, ao longo de suas respectivas vidas, de aprender e exercitar sentimentos valiosos para os seres humanos, tais como o respeito e a percepção do outro.Que pena.
Há ainda a questão da sustentabilidade da democracia, considerando a manutenção da ordem, eis que a premissa é simples: “quem chega primeiro, merece ser atendido primeiro”, ainda que se considerem as prioridades de atendimento a idosos, gestantes, mulheres com crianças de colo ou portadores de necessidades especiais ou deficientes físicos, como o linguajar “politicamente correto” prefira.
A permanência ou não numa fila – seja ela, em um estacionamento, banco, mercado ou cinema – pode refletir nosso modo de encarar a vida e os outros.
Existem, pois, valores subliminares, mas essenciais numa fila, muito mais do que um simples ordenamento de pessoas.
Em nenhum momento, procuramos brigar com as duas mulheres aqui aludidas, mas os seus comportamentos nos serviram de reflexão e a conclusão de que vamos continuar a respeitar as filas.
Afinal, sem sermos piegas, somos defensores da democracia, da cidadania e acreditamos que a delicadeza e o respeito ao outro só nos faz estar em comunhão com as outras pessoas. É o nosso religare.
É nossa maneira de ser feliz e de “amar ao outro como a nós mesmos”.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

O NAMORO ENTRE O SOL E A TERRA.


Da escuridão se fez a luz.
Do silêncio se fez o som.
Da quietude do universo se fez a vida.
Assim, fizeram-se o Sol e a Terra.
Ao Sol coube cuidar da Terra, mantendo-a aquecida com a energia de sua luz.
Deveria assim o Sol ser vigilante para com a Terra, para sempre.
A Terra coube ficar sempre próxima ao Sol, cercando-o em sua órbita.
Dia e noite, Sol e Terra se enamoram.
Enquanto o Sol cuida da Terra com a energia e o carinho de sua luz, a Terra baila ao redor do Sol, cortejando-o como a amada que se mostra graciosamente ao namorado.
Para enaltecer o amor entre o Sol e a Terra, criaram-se as estrelas.
E desse amor nasceu a Lua que gira em torno da Terra, como um filho que fica próximo a sua mãe.
Apesar de não se tocarem, Sol e Terra sabem que sempre estarão ali, bem juntos, um e outro, eternamente, na infinitude do leito do universo.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O BAILE


Noite de sábado, pista cheia de uma casa na Lapa, Rio de Janeiro. No escuro, corpos se agitam, com a música eletrônica no fundo. Techno, Hip-Hop e Funk agitam a noite.
O DJ capricha no repertório que embriaga as pessoas, juntamente com bebidas e cigarros. Bebe-se de tudo. Fuma-se de tudo.
Os deuses só são alcançados mediante a embriaguez.
Na penumbra, homens e mulheres dançam e se comungam em gestos eróticos. Tudo fica à flor da pele.
Contratos sociais e convencionais dão lugar a contratos afetivos, efêmeros, líquidos.
Nada se combina. As coisas acontecem espontaneamente. Pra que falar se o que impera é a orgia. Um constante (re)arranjo se faz durante toda a noite. A dança e a circulação pela pista possibilitam encontros. Olhares, beijos e toques são os cartões de visita.
Todas as pessoas querem ver e ser vistas.
A vida pulsa, coletivamente. Mesmo quem tenta se conter, é irresistivelmente acolhido pela massa. Ninguém é de ninguém, e todo mundo é de todo mundo.
Os seguranças da casa se fazem presentes para manter a ordem, reconhecendo que vigora a desordem, ou, uma nova ordem. A ordem da vida que se liberta das amarras do cotidiano.
Aliás, não importa a idade, o sexo, a formação cultural ou a profissão. Nada serve para apartar. Tudo une.
Cada pessoa coloca sua máscara. Os mitos da racionalidade, da labuta e da morte sedem lugar aos deuses do inconsciente, da orgia, da festa, da alegria e da vida.
Deixa rolar. Esse é o tema da noite.
Viva a vida, ainda que seja somente no presente. Não se quer ser eterno, mas sim infinito. O agora se propaga no tempo. Pra que pensar no futuro. Who wants to live forever?
Deixa rolar.
A noite termina onde se quiser. Ali mesmo, naquela casa; num motel; na praia; pela cidade. Sabe-se lá
Deixa rolar.
Até lá, aproveite o baile e...
Deixa rolar.

O MENINO E O VALE


Bachir estava sentado num bloco de pedra, em frente à casa em que habitava com seus pais e irmãos. O chão de terra arenosa lhe servia de palco para sua imaginação. Nele, com um pequeno graveto, tecia retas e curvas, fazendo desenhos que iam do retrato de sua realidade até suas imaginações que planavam sobre sua cabeça como as aves que apareciam no céu azul.
Bachir era um menino como outros que vivam naquela vila encravada no meio de um vale cercado por montanhas áridas, formadas por pedras e algumas plantas que ousavam resistir às condições climáticas adversas. Casas de barro e tijolos envelhecidos serviam como marca da resistência humana num cenário desolador. Era uma vila pobre, com pessoas visivelmente humildes, em sua maioria, velhos. Crianças naquela vila eram muito poucas.
A subsistência dos habitantes da vila era garantida graças à atividade agrícola e à criação de alguns animais, como porcos e galinhas. Água naquela região era um recurso escasso. Só havia um poço para abastecer toda população local.
O interessante é que ninguém se aventurava a sair da vila, ou, pelo menos, ninguém que se tivesse notícia recente, pois conta-se que uma única pessoa havia partido há muito tempo e que ninguém soubesse mais dela.
Circulava entre os habitantes daquela vila uma lenda de que a pessoa que há muito havia partido se perdeu nos confins do mundo. Para eles, a vila representava uma espécie de centro do universo; tudo que estivesse fora dela e, portanto, além do alcance da visão de seus moradores, era considerado como perdido e fadado à desgraça.
Bachir cresceu e percebeu que seus pensamentos extrapolavam os limites daquela vila. O vôo das aves lhe dava a sensação de infinitude do universo frente às limitações daquela pequena comunidade. Olhava para o topo das montanhas que cercavam a vila e se perguntava se realmente não haveria nada além delas.
Bachir se perguntava se as pobres condições da vila onde morava se repetiriam além dos limites estabelecidos pelas montanhas. Via as aves e as nuvens atravessarem as montanhas. As idas e vindas das aves, numa liberdade invejável, começaram a lhe chamar a atenção.
Quando já tinha uma idade mais avançada e, segundo a cultura popular da vila, em plenas condições de se tornar independente de seus pais e até se casar, Bachir sentiu-se tocado pela vontade de quebrar certas tradições, sendo uma delas, a recomendação de não subir as montanhas para ver o que haveria além delas.
Para o povo local, a recomendação de partir para o topo das montanhas assumia uma condição divina, o que, na prática, se revelava como uma espécie de proibição. A simples menção a possibilidade de cruzar as montanhas era encarada pelas pessoas daquela vila como um tabú. Se o Criador havia confinado a população a viver naquele espaço físico limitado, mas em segurança, não caberia aos homens a ousadia de quebrar tal preceito. O castigo seria a perda no deserto e, conseqüentemente, morte por sede e fome.
Na mesma proporção que Bachir se entregava à necessidade de se aventurar pelas montanhas, sentia temor de que as lendas dos habitantes da vila se concretizassem. A vontade de imitar as aves ia de encontro ao medo da perdição e morte.
Certa noite, quando as atividades na vila haviam cessado até a manhã seguinte, Bachir resolveu testar sua coragem. Saiu de casa com uma bolsa contendo pão e água. Partiu por uma das montanhas que cercavam a vila, tomando cuidado para que não fosse visto.
Começou sua caminhada com um misto de euforia e medo. Quando já tinha percorrido uma boa distância, percebeu que a caminhada até o topo da montanha seria árdua. Além das condições inóspitas da montanha em questão, sua altura servia para intimidar qualquer um que por ela se aventurasse.
A temperatura caía muito ao anoitecer, revelando uma variação térmica de extremo contraste com as altas temperaturas dos dias.
Naquela noite, o medo foi maior do que a sede de ver o novo, fazendo com que Bachir retornasse para sua casa. Por mais duras que fossem as condições de vida na vila, pelo menos havia um sentimento de que nela estaria a única garantia de segurança física de seus habitantes, inclusive do jovem aventureiro.
O dia raiou e o menino voltou a olhar fixamente para as montanhas. Em sua mente havia uma mistura de segurança e covardia. Ficou angustiado e confuso.
Via as aves num vôo sem limites. Elas planavam, aproveitando as correntes de ar que atravessavam o vale. Ao fundo, as nuvens se moviam lentamente, surgindo por cima de umas montanhas, atravessando o vale e fugindo pelas montanhas do lado oposto.
Tal visão serviu para acentuar o sentimento de angústia em Bachir. Passou a noite em claro, virando e revirando em sua cama, iluminado pela lua cheia que se sustentava no céu.
No dia seguinte, se levantou cedo, como era de costume naquela vila, eis que havia obrigações a serem cumpridas. Mesmo assim, as tarefas desempenhadas durante aquele dia em nada distraíram a sua mente. Afinal, as montanhas estavam lá para lembrar-lhe da dúvida que habitava sua cabeça – ficar na segurança da humilde vila ou partir rumo ao desconhecido.
O dia passou. A noite caía e Bachir continuava olhando pela janela o topo das montanhas.
Aquilo se repetiu por várias vezes, chamando inclusive a atenção da mãe do menino. Quando não estava ocupado com os afazeres, Bachir permanecia com sua atenção voltada para os cumes das montanhas.
Com a intuição materna, aquela mulher percebia a vontade de seu filho. E, se por um lado desejava interromper qualquer possibilidade de aventura de seu filho, por outro, sentia que a hora da partida se aproximava. E essa hora havia chegado
Um dia, antes que a vila despertasse, Bachir partiu. Em sua pequena sacola, presa às costas, levava aquilo que supunha ser necessário para sua sobrevivência, pelo menos, para alguns dias.
Além da sacola, levava consigo um sentimento de despedida. Antes de sair de casa, deu uma última olhada em seus pais, que ainda permaneciam na cama, já que o dia não havia se firmado.
Bachir viu o reflexo do amanhecer no rosto de sua mãe. Percebeu a marca do tempo nas rugas do rosto e nas mãos da mulher que ali dormia. Não era uma mulher velha, mas que, devido à intensa carga de trabalho ao longo dos anos, havia envelhecido rapidamente.
Pela última vez, o menino viu seu pai e sua mãe, tomando todas as cautelas para que não fosse percebido. Não sabia ele que sua mãe o havia percebido ali bem em frente à porta do quarto do casal, a qual se encontrava entreaberta. Não percebia que aquela mulher havia optado por deixá-lo partir, mesmo considerando o temor de mãe.
Enfim, Bachir deixou a casa, partindo rumo às montanhas que aguardavam há muito a sua decisão.
Nas primeiras horas, a subida foi fácil. Mas, com o correr do tempo e o desgaste físico, a caminhada ficava cada vez mais difícil, levando o menino a pensar novamente se não seria melhor retornar para casa, como tinha feito em outra tentativa.
Parou e olhou par trás. Viu a humilde vila onde havia residido, notando que o que até então parecia grande não passava de um ponto na imensidão do vale.
Mas dessa vez, determinado em se deparar com o desconhecido, o outro lado das montanhas, Bachir prosseguiu. Levou um dia e uma noite inteira para chegar ao topo de uma das montanhas que o desafiava, até que no dia seguinte conseguisse chegar lá.
Tendo chegado ao topo de uma das montanhas, Bachir se deparou com uma paisagem muito diferente daquela a que estava habituado. Ao contrário de uma pequena vila no meio de um vale como solo árido, desta vez podia ver as riquezas naturais que se espalhavam bem a sua frente. A exuberância de uma extensa planície verde tomava conta do cenário que estava bem ali à frente do menino.
De início, foi tomado pela emoção, ao ver a paisagem mais rica que tinha visto em sua vida. Nunca tinha visto tanta riqueza, já que os extensos campos verdes e as fontes de água contrastavam como aquela paisagem árida do vale onde havia habitado.
Mas a emoção foi abalada pelas lembranças e pelo temor de seguir adiante. Como seguir em frente, rumo a lugares desconhecidos? Será que valeria a pena aceitar o desafio em troca de uma vida modesta mais segura?
A essa altura, Bachir já havia caminhado bastante para olhar para trás e rever a vila onde havia passado sua vida.
E foi naquele momento que decidiu seguir em frente. Se dispos a carregar consigo somente as lembranças do lugar onde viveu até então e das pessoas com quem conviveu.
Foi ali que sentiu que era o momento de ruptura, de busca pelo novo, de amplitude de concepção do sentido de sua própria existência. Pela primeira vez, compreendeu que viver a vida implica correr riscos.
E assim, Bachir partiu rumo ao desconhecido e à imensidão de possibilidades que a vida lhe reservara, diante do cenário que estava ali bem a sua vista e com a coragem de seguir em frente. E partiu.

O OUTRO


Num dia de sol radiante e céu azul, com nuvens esparsas e volumosas como chumaços de algodão alvos, o campo de trigo parecia um grande tapete dourado que se mexia ao leve toque da brisa. Em meio ao campo de trigo, Baruch cuidava de ramo por ramo, num zelo que revelava seu carinho para com a terra, herdada de seu pai, Abiel, por ocasião de seu falecimento. Além do cultivo de trigo, Baruch de dedicava a criação de galinhas e ovelhas.
Assim como Baruch, Faruk também cultivava trigo e criava animais. Faruk era irmão de Baruch por parte de pai. Abiel havia se relacionado com Ada e Aminah, as quais geraram Baruch e Faruk, respectivamente.
Com a morte de Abiel, Baruch e Faruk herdaram, cada um, uma metade da terra. Mesmo com o pai em comum, Baruch e Faruk nunca fizeram questão de manter uma boa relação. Pelo contrário, com a morte de Abiel, a discórdia entre os irmãos parecia crescer a cada dia, ao ponto de Baruch e Faruk selarem um pacto de ódio mútuo. E, em decorrência deste pacto, um irmão não se proporia a facilitar a vida para o outro.
A terra que outrora pertencera a Abiel foi dividida em duas partes iguais. Baruch ficou com uma metade e Faruk com a outra. Ambos faziam questão de deixar bem claro que na primeira oportunidade, buscariam forçar a saída do outro de sua parte da terra, com o intuito de unificar as porções, como nas dimensões originais.
Cada um dos irmãos habitava a terra com sua respectiva família. Baruch era casado com Miriam e tivera com ela dois filhos chamados Dedan e Elam. Já Faruk era casado como Salma, tendo Safira e Emir como filhos deste casal.
Tanto Baruch como Faruk se dedicavam quase que exclusivamente às plantações de trigo e criações de galinhas e ovelhas. Enquanto isso, Miriam e Salma tratavam de cuidar dos afazeres domésticos e da educação de seus filhos, dando prosseguimento à tradição de suas famílias.
Por parte de Baruch, Elam ajudava seu pai no cultivo da terra e na criação dos animais, em boa parte do dia. Nas manhãs, Elam estudava numa escola localizada numa cidade próxima. Dedan havia partido para estudar numa escola religiosa longe da terra de seu pai, o que para Baruch significava motivo de orgulho.
Emir e Safira também estudavam numa escola na mesma cidade em que Elam freqüentava outra instituição de ensino.
Apesar do pacto de ódio entre os irmãos, sua convivência se baseava na indiferença, até o dia em que algumas galinhas pertencentes a Faruk pularam a cerca rumo à propriedade de Baruch. Mesmo diante dos pedidos de Faruk, Baruch negou-se a devolver as galinhas que atravessaram a cerca que dividia as duas propriedades.
Para Baruch, as galinhas lhe pertenciam, pois haviam pulado o muro para dentro de sua propriedade, o que demonstrava que não foram roubadas. Tal afirmação irritou Faruk que, entendendo que a apropriação das galinhas por parte de Baruch significava um roubo, jurou vingança.
O tempo passou, enquanto a promessa de Faruk parecia ficar esquecida. A rotina dos irmãos, dedicada ao cultivo do campo e à criação de animais contribuía para que determinados sentimentos, como ódio e sede de vingança, fossem deixados de lado.
Mesmo fazendo questão de frisar que seus valores e culturas eram tão diferentes, ambos os irmãos e suas famílias levavam uma vida parecida. As atividades eram exercidas normalmente pelas duas famílias, de domingo à sexta-feira, quando, ao anoitecer deste dia, se dedicavam às tradições deixadas pelo patriarca Abiel. O cuidado especial com a higiene e a vestimenta marcavam, além das orações, as noites de sexta-feira.
Aos sábados, ambas as famílias não trabalhavam, em respeito às tradições familiares. Os afazeres normais à vida no campo somente eram retomadas no amanhecer de domingo.
Baruch e Faruk comercializavam ovelhas, galinhas, ovos e trigo com os moradores da cidade próxima, a mesma em que Elam, Emir e Safira estudavam. Mesmo diante da idéia de que o comércio desenvolvido pelos irmãos Baruch e Faruk significava uma concorrência direta, na prática, esta não se concretizava. Isto porque toda a produção de Baruch e Faruk servia para abastecer integralmente as casas e comércio da tal cidade.
A má relação entre Baruch e Faruk servia de assunto para as conversas na cidade. Considerando que a cidade era pequena e que todas as pessoas se conheciam, qualquer incidente não passaria despercebido.
Havia na cidade três grupos de pessoas. Um dos grupos simpatizava com a família de Baruch e somente adquiria os frutos de sua terra, enquanto outro grupo só comprava os produtos de Faruk.
Parecia que a desavença entre os irmãos chegava à vida dos habitantes da cidade, ainda que de maneira velada e não tão intensa como àqueles. Mas, ainda assim, tinha gente que dizia que somente comprava os bens vindos das terras de Baruch, eis que “este seria este o herdeiro legítimo de Abiel”. Para outros, por ser primogênito, Faruk seria o “verdadeiro herdeiro das terras de Abiel”.
Além dos dois grupos de simpatizantes, existia um terceiro grupo, mais volumoso e, que, sem se deixar levar pelo conflito entre os dois irmãos, dava pouca importância à origem dos produtos e das crias. Este grupo estava muito mais interessado em satisfazer suas necessidades, considerando os melhores preços oferecidos, do que se entregar ao conflito.
Junto a este último grupo, a concorrência entre Baruch e Faruk era acirrada. Os dois irmãos travam uma verdadeira corrida para ver quem chegava primeiro a cidade. A concorrência entre Baruch e Faruk tinha um fim maior do que o comercial; tratava-se de um jogo em que o objetivo era a ruína do outro.
Um dia, chegou aos ouvidos de Baruch que seu filho Elam estaria mantendo um suposto romance com Safira, filha de Faruk, o que para ele era inconcebível.
Elam e Safira pareciam não ligar para as desavenças de seus pais. Afinal, não conseguiam entender como dois irmãos de sangue, por parte de pai, faziam questão de se manter distantes. Mas, a distância que separava ambos os irmãos também fazia parte das tradições que envolviam ambas as famílias.
A aproximação entre Elam e Safira significava uma violação a tais tradições e, portanto, uma traição aos preceitos que eram tidos como inquestionáveis e invioláveis.
Por parte de Faruk, a aproximação entre Elam e Safira, sua filha, também não lhe agradava. Ele chegou, inclusive, a ameaçar Safira com a proibição de sair de casa.
A situação tomou uma dimensão que nem Miriam e Salma foram poupadas. Para seus maridos, estas seriam culpadas pelo suposto desleixo na educação de seus filhos.
O relacionamento entre Elam e Safira tinha um preço. A reprovação de seus pais, suas mães e seus irmãos era algo que não poderia ficar de lado. Tanto Baruch quanto Faruk haviam ameaçado Elam e Safira, respectivamente, com a possibilidade de deserdação, o que para os costumes locais era uma desgraça.
O conflito entre as duas famílias, devido ao relacionamento entre Elam e Safira, chegou ao clímax quando Emir interveio pela honra de sua família. Elam e Emir brigaram em pleno centro da cidade, na presença de inúmeras pessoas. Além dos hematomas e feridas nos corpos de ambos os rapazes, a briga parecia ter deixado marcas mais profundas no filho de Baruch e em Safira.
Elam e Safira perceberam que o preço a ser pago pelo romance era muito alto e que, portanto, não valia à pena continuar com aquele relacionamento. A separação do jovem casal serviu para mostrar a incompatibilidade entre as famílias de Baruch e Faruk.
Havia regras seguidas há muito tempo por ambas as famílias que jamais deveriam ser quebradas. Ficou claro qualquer membro, de qualquer das duas famílias, que ousasse violar tais preceitos, pagaria um alto preço.
Qualquer um poderia dizer que a separação entre Elam e Safira significou um ato de covardia, pois a eles faltaria uma visão de mundo maior do que a deixada pelos seus pais. Entretanto, a identidade que cada um carregava consigo era um traço marcante. Além da perda patrimonial a que cada um dos jovens estaria sujeito, o que mais importava era a possibilidade de perda de contato com seus pais, mães e irmãos.
Elam e Safira realmente viam o mundo de outra forma. Mas, procuravam manter seus referenciais. Ainda que inconscientemente, ambos os jovens carregavam a missão de dar prosseguimento às tradições de seus pais.
Certo dia, as ovelhas de Baruch foram acometidas por uma doença misteriosa que tratou de liquidá-las, uma por uma. Tal perda foi vista por ele como uma espécie de castigo divino pela aproximação entre Elam e Safira.
Baruch fazia questão de disseminar para quem quisesse ouvir que a aproximação entre Elam, seu filho, e Safira, filha de Faruk, havia contaminado seu lar e a todos que ali viviam, inclusive os animais.
A morte das ovelhas foi vista como um presságio ruim, que servia para alertar aos membros da família de Baruch que tal fato não poderia se repetir.
Por parte de Faruk, a morte das ovelhas de Baruch também era encarada como um castigo. Para ele, Deus havia se enfurecido com as supostas malícias de Elam diante de Safira, razão pela qual havia amaldiçoado o lar de Baruch.
O fato é que, cada um dos irmãos manifestava a crença que Deus estaria em seu lado.
Com o decorrer do tempo, Elam se casou com uma jovem moça, dando a Baruch três netos. E Safira também havia se casado com um amigo de Emir. Ela teve dois filhos.
Assim como fizeram com Elam, Dedan, Emir e Safira, Baruch e Faruk trataram de fomentar a rivalidade entre seus netos, mesmo que estes ainda fossem muito pequenos. Tanto Baruch como Faruk ensinavam a seus netos a lançar pedras sobre a propriedade da família considerada como rival, o que levou a ambas as famílias a colocar cercas de arame na parte de cima de seus muros e a melhor proteger suas criações de animais.
Tudo caminhava na sua mais perfeita rotina, quando uma tragédia se abateu sobre a família de Faruk. A notícia que chegara da cidade dava conta de que seu filho Emir havia sofrido um acidente enquanto transportava trigo para os comerciantes da cidade próxima à terra de seu pai. A carroça que guiava havia caído num barranco.
Tentando dominar os cavalos, Emir não conseguiu evitar a queda, vindo a morrer em decorrência de esmagamento pela carroça.
Faruk sofreu muito com a perda de seu filho homem. Além de ser mais velho que Safira, por ser homem, Emir era o herdeiro natural dos bens de Faruk.
A morte de Emir exerceu um forte impacto sobre Faruk que este logo adoeceu. Deixou de se levantar cedo e cuidar do campo. A plantação de trigo acabava por ficar abandonada. O mesmo acontecendo com as galinhas e as ovelhas.
Salma, mulher de Faruk, fazia o que podia para cuidar dos animais, enquanto Safira se dedicava à plantação de trigo.
Tomado pelo desgosto pela morte do filho, Faruk faleceu abraçado à fotografia de Emir.
Muitas pessoas acreditam que a morte de Faruk significaria o tão sonhado triunfo para Baruch. Imaginavam aquelas que, com o falecimento de Faruk, Baruch finalmente poderia adquirir as terras de seu irmão, mesmo considerando o pagamento de um alto preço aos herdeiros de Faruk. Afinal, essa era a meta de vida de cada um dos irmãos – se livrar do outro e adquirir a porção da terra que havia sido desmembrada por conta do falecimento de Abiel.
Mas, ao contrário do que todos esperavam, Baruch misteriosamente começou a adoecer. Tanto que, Dedan, que estudava em uma cidade muito longe, veio às pressas ver seu pai.
A notícia logo se espalhou pela cidade. Alguns atribuíram a doença de Baruch a uma doença. Para outras pessoas, a velhice de Baruch cobrava seu preço.
Afinal, qual seria o motivo do adoecimento de Baruch?
Há que diga que Baruch sofreu pela a morte de seu irmão Faruk.
Mas como poderia ser? Os dois não se odiavam?
Talvez este seja o real motivo. O ódio entre os irmãos parecia servir como motivação para a vida de ambos. Somente por meio da existência de um, o outro tinha razões para justificar seus atos e suas palavras.
Ao que parece, com o perecimento de um dos irmãos, o outro perdeu o sentido de sua própria vida.